segunda-feira, 1 de setembro de 2014

QUEM É O RESPONSÁVEL? Um caso real de bipolaridade num atendimento com apometria.



“Muitos tratam a apometria com tamanha banalidade e superficialidade que chega a ser gritante a falta de esclarecimento de como funcionam as regras que ditam as Leis Divinas e suas implicações.”

"Portanto, quando existir orientação em casas espiritualistas para pessoas com essas características o cuidado deve ser redobrado, pois, não nos cabe avaliar a anamnese médico-clínica e nem seria ético interferirmos no tratamento, pois a preservação da integridade física e mental dessas pessoas é imprescindível." 

          Noite de atendimento apométrico na Casa de Caridade Umbandista. Tudo preparado, limpo, organizado. Recepcionistas a postos, equipe de triagem idem. Dirigentes atentos para solucionar possíveis contratempos e dar suporte aos trabalhadores no salão em caso de necessidade. Os consulentes começam a chegar e são recepcionados na entrada do salão, recebendo fichas numeradas, por ordem de chegada, para participar da triagem onde irão relatar os motivos pelos quais buscaram atendimento. Após a entrevista individual o consulente recebe uma ficha de anamnese que deverá preencher com seus dados pessoais fazendo então, pela segunda, vez o relato de suas expectativas e necessidades.

          Interessante observar que os motivos que levam as pessoas a buscar atendimento são os mais diversos e inimagináveis e as razões se colocam numa escala que varia entre reais, complexas e fúteis ou sem nenhum fundamento. Muitos tratam a apometria com tamanha banalidade e superficialidade que chega a ser gritante a falta de esclarecimento de como funcionam as regras que ditam as Leis Divinas e suas implicações. O que parece careta nos dias de hoje, pois os seres humanos tentam distorcer a realidade de acordo com as suas crenças doentias, numa justiça Divina mutável e interesseira, onde tudo é possível e os desafetos que se cuidem. Pessoas assim buscam soluções imediatistas com qualquer um e em qualquer lugar que acolha suas exigências estapafúrdias e carregadas de falta de bom senso. Entretanto muitos há que realmente necessitam, se    comprometem com o tratamento espiritual a que são submetidos, colocando a evangelhoterapia em suas vidas e quando necessário fazendo o devido acompanhamento médico, com o profissional competente para resolver os casos relativos a saúde física. Ninguém, em nenhuma casa espiritualista está autorizado a receitar medicamentos ou interromper tratamentos e os mentores e guias comprometidos e evoluídos, jamais darão algum tipo de orientação deste quilate, que mais tarde venha a prejudicar o consulente. A saúde física pertence aos médicos da terra e somente eles têm competência para opinar sobre ela.

          Então, a Sr(a) XYZ, de aproximadamente 50 anos, veio de outro Estado para Porto Alegre, porque o dirigente da casa espirita onde faz tratamento disse que não tem condições de fazer apometria e que viesse procurar em POA. Aproveitou férias do trabalho, deixou filhos com a mãe e viajou, tendo também procurado médico neurologista para tratamento. Apresentava forte dor de cabeça, confusão mental, tonturas, enjoos, visões de vultos a qualquer hora, medo exacerbado não permitia sair de casa e por vezes pensamentos de se matar, acabar com tudo de uma vez.  Afastada do convívio social e com dificuldade de manter amizades, não suportando estar em grupos, sentindo-se sufocada e abafada. No relato que precede o atendimento disse que havia feito trabalhos recomendados por uma vidente conhecida, que havia feito "iniciação" em casa de religião, não sabendo especificar claramente em qual, nem o que havia realmente feito, que estava iniciando tratamento numa casa espírita kardecista, que não sabia mais o que fazer. Diga-se que nos três momentos em que foi questionada suas respostas eram diferentes do que  havia relatado anteriormente, tal o estado de turvação mental que se encontrava.

          Lá pelas tantas a dirigente perguntou a ela se tomava algum tipo de medicamento de uso contínuo, se fazia algum tipo de tratamento para a saúde. Foi então que surgiu a revelação bomba.

     - Eu usava medicação para “bipolaridade” há anos. No terreiro que me consultei o “pai de santo” “incorporado” me falou para interromper com o remédio, porque as oferendas pagas que fiz eram mais que suficientes e o medicamento estava “me prejudicando”. Aí parei de tomar o remédio e não voltei mais ao médico.

     Meu Deus! Quem é o responsável por tamanha ignorância? Quem se responsabiliza por este absurdo? Como alguém ouve um disparate desta envergadura e não tem discernimento para perceber a furada em que está se metendo? Decretando a sua incompetência para gerir a sua saúde e repassando a terceiros oportunistas e despreparados o poder sobre sua enfermidade? Sobre sua vida? Cadê o desconfiômetro que as pessoas devem ter, para detectar os engodos a que são submetidas, tornando-se cativas de panaceias obscuras e ditas “magias fortes” com oferendas e trabalhos inócuos que competem com a medicina? E o médico que está aplicando o tratamento não é consultado? Por quê? Porque é mais fácil acreditar num qualquer que cheio de lábia e subterfúgios aliado ao desconhecido e sobrenatural promete curas milagrosas? Estamos no ano de 2014 DC, a medicina está avançada, pesquisas são feitas e novos métodos de tratamento e princípios ativos farmacológicos são descobertos diariamente  e alguns ainda acreditam em “médiuns milagreiros” ou “espíritos” poderosos que sem ética contrariam as leis da ciência médica?

          A preguiça mental é tão grande e a falta de vontade de fazer algo por si é tamanha porque dá muito trabalho? É chato ter que se comprometer a mudar atitudes e pensamentos? Deixar de lado os pequenos vícios e atitudes menos dignas? Então só resta mesmo ficar à mercê dos espertalhões que estão aí para tirar dinheiro dos incautos e preguiçosos. Cada um tem e recebe o que procura e o que merece. Assim é e assim será enquanto a indolência for maior que a vontade de trabalhar para melhorar. Nada, nada cai na nossa mão de graça. Tudo nesta vida é fruto do nosso trabalho e esforço. Todas as atitudes que tomarmos terão como contrapartida uma consequência que poderá ser boa ou não. Só depende de nós.

Lizete Chaves


Nota: Doença maníaco-depressiva ou BIPOLARIDADE.

     Pessoas diagnosticadas Bipolares tem como tratamento mais comum o Lítio. Existem outros medicamentos que também são utilizados como a carbamazepina, valproato e gabapentina,  mas o comumente utilizado é o Lítio. Essa medicação tem muitos efeitos colaterais e seu uso em demasiado ou simplesmente a interrupção abrupta do tratamento podem trazer consequências muito danosas e até mesmo irreversíveis.

      O Lítio tem sua dose terapêutica e sua dose tóxica muito próxima uma da outra, em farmacologia chamamos de janela terapêutica estreita.  As doses tóxicas levam a sérios problemas renais, Diabetes Insípido e até mesmo alguns problemas a níveis cerebelares. Pode também, apresentar distúrbios na tireoide e algum comprometimento cognitivo leve durante o uso crônico.  Já a interrupção sem orientação médica devida pode causar tendências suicidas, comprovadas por estudos clínicos. 

      Portanto, quando existir orientação em casas espiritualistas para pessoas com essas características o cuidado deve ser redobrado, pois, não nos cabe avaliar a anamnese médico-clínica e nem seria ético interferirmos no tratamento, pois a preservação da integridade física e mental dessas pessoas é imprescindível. 

(Débora Nery Machado, farmacêutica - CRF/RS 13326).
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