terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Intenções para o ano novo.


Belinha não costumava fazer lista de intenções na passagem do ano, mas como as amigas faziam e depois não era mole aguentar os comentários durante os doze meses seguintes, resolveu que faria para o ano novo que estava se aproximando. Quem sabe assim colocaria mais empenho em alguns lances que gostaria de melhorar em sua vida. Ouvira dizer que o que vale é a intenção e de boas intenções estava transbordando. Passou todo o mês de novembro pensando em quantos itens deveria colocar. Comprou até um caderninho todo enfeitado e perfumado. Colocou alguns símbolos cabalísticos para dar maior força e poder aos seus desejos e fundiu a cuca pensando. 

Sentiu que não era tão fácil como diziam e jurou que não riria mais das amigas, porque estava apanhando para fazer a tal da lista. Uma vez até sonhou que fazia um manuscrito com tantos itens que nem sabia quantos e teve um pesadelo. A lista se materializou no sonho e caiu por cima dela sufocando-a. Acordou com falta de ar e quando conseguiu dormir sonhou novamente com a bendita. 

        - Credo, meu Deus, que troço pegajoso!

          Uma coisa tão boba dar tanto trabalho.  O que eu tinha que inventar moda. Agora estou quebrando a cuca, por meia dúzia de baboseiras.

Sondou uma das amigas, sondou a outra e cada uma dizia tantas coisas diferentes que ficava mais confusa ainda. O pior de tudo é que no trabalho, as colegas, falavam o dia todo no assunto. Diziam que já tinham feito a delas, até a diarista da família comentou que tinha uma lista enorme. Ficou pensando no que as pessoas escreviam. E quando questionada sobre o que tinha colocado, mudava de assunto, disfarçava. Ficava constrangida e dizia: - Ainda não aprontei, faltam alguns itens. Mas com certeza hoje ou amanhã vou terminar. E passava o hoje e o amanhã e nada. 

O que era para ser uma brincadeirinha inocente tornou-se um sufoco, estava a ponto de rasgar tudo e mandar as intenções às favas, mas por uma questão de honra, porque fora encostada na parede pelas amigas das quais debochava, faria de qualquer jeito. Então faltando uma semana para a virada do ano, passou uma noite em claro e conseguiu terminar a bendita lista. Foi uma alegria danada, ficou exultante e não via a hora de mostrar para as companheiras. Conseguiu enumerar seis (06) intenções a pau e corda. Mas conseguiu. Para quem fazia pela primeira vez estava ótimo. Colocou no tal caderninho cabalístico, fechou com uma bela fita de seda e jogou na gaveta dos assuntos confidenciais. Tudo feito só resta aguardar as coisas acontecerem. Claro que colocaria empenho e força de vontade para ajudar.

O ano velho se foi. O ano novo chegou com uma bela chuva e trovoadas, para limpar o astral da cidade que estava impregnado dos festejos mundanos desde o natal, porque muitos nem sabem o que estão realmente comemorando. Esquecem o sentido verdadeiro e tradicional destas datas. E haja comemoração, haja exagero, haja desperdício, haja sujeirada e emporcalhamento no sítio vibratório de Iemanjá. Que, aliás, deve ficar de cabelo em pé olhando as sandices que os devotos provocam, com as suas oferendas e pedidos descabidos.  Vai ver a chuva que cai nestas datas é para limpar o acúmulo de lixo astral e material. Quem sabe? Deve dar um trabalho danado para o povo do mar. Então Belinha que estava na beira da praia comemorando a passagem do ano, jogou algumas rosas brancas no mar e reforçou o pensamento na listinha secreta que deixara em casa. Propósito firme seguiu com os familiares apreciando os festejos. Quando se afastou não percebeu a cena das ondas devolvendo as rosas para a praia e uma criança distraída ferindo os pés, porque pisara nos galhos espinhentos e o pai tentando carinhosamente acalmá-la, entristecido com o fato.

        Os festejos terminaram e a rotina se estabeleceu. Trabalho, casa, amigos, passeios. E foi num destes passeios que ficou enlouquecida ao entrar num Shopping Center e soltar a franga, numa mega liquidação. Endividou-se por vários meses. Sem lembrar nem por um instante que ali caíra sua primeira intenção, gastar menos. E a segunda também, economizar. Voltou para casa exultante com as compras e nem lembrava mais das intenções. Seguiu durante os outros meses, totalmente alheia e esqueceu completamente de tudo que tinha feito. A terceira intenção foi por terra quando deixou de frequentar o curso de aperfeiçoamento que viria melhorar seu desempenho profissional. A preguiça foi mais forte e os convites para as festas venceram todas as barreiras. A quarta intenção desmoronou quando brigou feio com os pais por questões banais de pontos de vista e escrevera que seria mais flexível com as opiniões alheias. Seguiu-se a queda da quinta que dizia respeito a ajudar os irmãos menores com as tarefas escolares. E por último a sexta intenção foi esmagada quando nem sequer fez um esforço para acompanhar as aulas de educação espiritual, na casa de caridade que os pais frequentavam. Educação mediúnica e espiritual, porque desenvolvimento mediúnico não é o termo mais correto, de vez que ninguém desenvolve ninguém. Ou o médium nasce com toda a preparação pré-encarnatória para as lides mediúnicas, ou nenhum tipo de desenvolvimento fará por ele. Outorga vem do Mais Alto e se não estiver previsto no programa educativo e redentor da criatura, não tem ninguém na terra que vai conceder.

Infelizmente muitas seres hoje estão completamente ignorantes em relação as verdades espirituais. Tem alguns que morrem de medo de espíritos e os rotulam de demônios. Não é encarnado, materializado, não podem ver e tocar então é coisa do Demo. Vidência é visão e Deus me livre e guarde. Alguns não creem em nada, tem medo do sagrado, nem falam no assunto. Tem medo da morte. E outros ainda só acreditam no poder econômico, acham que o dinheiro abre todas as portas e transitam como todos poderosos, comprando pessoas, posições sociais e até amores. Amores interesseiros e frívolos, como frio é o toque das moedas.

    Lizete Iria


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