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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O enredo de Pedrinho da praia - Erê de Ogum!?

        Ele nasceu mestiço logo após a decretação da Lei Áurea - libertação dos escravos. Filho bastardo de um português abastado, atacadista e importador de bacalhau bem sucedido estabelecido no Rio de Janeiro. Sua mãe, negra filha de africanos que vieram para o Brasil escravizados, nasceu na senzala. Exímia cozinheira, trabalhava para o português atacadista e aprendeu com uma luzitana mais velha a arte culinária e dos temperos do além mar. Logo fazia saborosos quitutes de peixes e bacalhoadas que deixavam o patrão em deleite gustativo e com lascívia a olhar suas curvas voluptuosas. Não tardou, era amante do português e se "descuidou" ficando grávida. Para ninguém suspeitar, mandaram-na para o interior do Rio a título de cuidar da mãe adoentada e senil. Quando nasceu o mulatinho, voltou a cidade e reassumiu sua função de cozinheira na mansão do fidalgo e rico patrão. Entregou-lhe o filho em segredo e o mesmo prometeu nunca deixar-lhe faltar nada, mas ela teve que jurar que não mais o veria pelo resto da vida para manter em segredo o fato de ser sua amante e mãe de um filho do patrão.
         O menino foi entregue ao negro Tibúrcio, mais conhecido como mestre Tibuca, exímio pescador e capoeirista, além de iniciado nas artes divinatórias dos Orixás, pois seus pais foram nagôs e ele iniciado no conhecimento oculto dos Deuses Yorubanos por sua mãe, que tinha sido sacerdote - Ialorixá - fundadora dos primeiros candomblés baianos. Mestre Tibuca era líder  de uma comunidade de pescadores nas areias de Copacabana e quando não estava no mar pescando, se encontrava nas areais ensinando a fazer redes ou ao som dos atabaques e berimbais com seus aprendizes a lutar capoeira. A noite, jogava búzios em sua choupana e uma vez por semana comandava um xirê - toque, canto e danças - para os Orixás num barracão no alto da mata e que dava de frente para o mar. Mestre Tibuca era muito respeitado, por seu caráter justo, conhecimento do mar, da capoeira e da magia com os Orixás. Muitos comerciantes abastados do porto aduaneiro do centro da cidade, vinham até ele para contratar seus serviços divinatórios e pedirem axé aos Orixás.
     Assim lhe foi entregue o rebento mulatinho filho de negra cozinheira com o português bacalhoeiro rico, em verdade seu principal cliente. Foi-lhe prometido uma gorda pensão mensal até o menino se tornar um homem feito.  Pai Tibúrcio de Oyá, como era conhecido o mestre pescador e capoeirista na comunidade iniciática dos negros "macumbeiros" da época, jogou os búzios e o menino era esperado pelos Orixás. Deveria ser preparado em todas as artes mágicas, pois deveria ser o futuro sucessor de Pai Tibúrcio como babalaô, sob a égide da grande mãe das águas, Yemanjá, que era "dona" do Ori - alto da cabeça - do menino. A partir de então ele passou a se chamar Olimar, àquele que viveria de frente ao mar.
     O mulato Olimar cresceu aprendendo rápido tudo que Pai Tibúrcio o ensinava. Tornou-se um estupendo lutador de capoeira, com agilidade impressionante nas pernas. Era conhecido como pé grande. Um caboclão de mais de 1,90 metro, fortíssimo, ágil pescador e se considerava futuro sucessor de Pai Tibúrcio no barracão dos Orixás. Somente seu pai adotivo conseguia impor-lhe limites, pois todos o temiam pela força física e destreza ao adentrar o mar vencendo as ondas.
         Os anos passaram generosamente, sem maiores preocupações.
       Pai Tibúrcio, já velho, um dia chamou a todos da comunidade e disse que era chegada a hora, dele partir e que não demoraria sete - 7 - luas para o seu retorno ao mundo dos Orixás. Seu sucessor era seu filho do coração, o mulato Olimar. Todavia, ele só seria plenamente um Babalaô dominando integralmente a arte divinatória ancestral após um período probatório de 7 anos, uma espécie de batismo de fogo, conforme indicavam os búzios comunicando a vontade das divindades, especialmente Iemanjá, sua regente. Este tempo seria necessário para ele comprovar na prática a humildade requerida para ser um sacerdote de verdade frente à comunidade religiosa, dominando seu temperamento altivo diante das provações que passaria. Durante este período setenário,  a qualquer momento os Orixás poderiam interromper seu sacerdócio. 
       Passados sete dias Pai Tibúrcio desencarna suavemente dormindo. Após o período de encomenda do seu espírito e resguardo da comunidade conforme os preceitos nagôs, assume o comando espiritual do barracão Pai Olimar de Yemanjá. Após curto espaço de tempo, todos já tinham esquecido da recomendação de sete anos de provação, notadamente Olimar. Já estava envolvido com mulheres casadas, cobrava altos valores por trabalhos de magia, batia em todos que o enfrentavam nas rodas de capoeira com violência extrema e se gabava da sua força e poder com a magia, pois sua “macumba” era forte, e se vangloriava aos ventos de ser o melhor pescador de todos. Nem bem tinham passado 3 anos, era temido, assustava com sua força física, soberba e empáfia, eis que não escutava ninguém. 
        Certo dia, em que o barracão fazia os preceitos para a festa anual de Oyá, Orixá dono do axé da casa, tendo seus fundamentos sido feitos pela africana mãe de Pai Tibúrcio, na época ainda viva, resolve Olimar entrar no mar para pescar, mesmo sabendo que era proibido pela “lei do santo”, dado que nas festividades de aniversário ele como filho de Yemanjá e do seu axé não podia entrar no mar, pescar ou comer qualquer tipo de peixe fora do barracão, uma espécie de interdição e delimitação de espaço, pois seu Orixá estaria sendo cultuado e homenageado junto com os demais dentro do barracão e ele devia respeitar o seu espaço sagrado, ponto de força na natureza, no caso o mar e tudo que dele provinha. Em verdade ele deveria ficar em resguardo preparando as obrigações e seus elementos rituais.
       Mas Olimar era teimoso, orgulhoso, não aceitou a interdição dos mais velhos e resolveu ir pescar. Olhando o mar, dia claro, ensolarado e sem vento, dasafiou-o e escarneceu dizendo que voltaria com a rede cheia, que Yemanjá não o desampararia. Realmente, entrou no mar e jogou a rede. Nunca havia pego tantos e belos peixes. Suava para puxar a rede e tirá-la do mar. Já estava quase no fim e repentinamente algo puxa a rede com muita força para o fundo, seu pé esquerdo, por sinal enorme, não por um acaso era chamado de pé grande, fica misteriosamente enroscado na rede e ele cai no mar. Nada com todas as suas forças e a canoa fica cada vez mais longe. Parece que tem uma "baleia" enroscada na rede. Quanto mais ele nada, mais pesada a mesma fica. Extenuado, com um Sol causticante batendo-lhe na cabeça, que latejava e queimava como se tivesse pegando fogo, o mar o engole e ele é puxado para baixo. Tranca a respiração por algum tempo, até que o pulmão não aguenta mais e se enche de água. Em segundos enxerga Pai Tibúrcio a sua frente, nas profundezas de um mar límpido, de um azul cristalino. Com uma aureola amarelo dourada em volta da sua cabeça, Pai Tibúrcio lhe fala:

- meu filho amado, Yemanjá te chama de volta, ela que é dona do teu Ori, da tua mediunidade, e é verdade que ela não te deixa desamparado, por isto ordenou tua volta. Não seguiu a tua programação reencarnatória e Yemanjá zela por ti e para não caíres mais ainda ela te entroniza no Reino mais uma vez. Estavas em período probatório, lembra, mas foste vencido pelo teu orgulho ao invés de um vencedor pela modéstia. Mas não te aflige, se te fizeste grande frente aos olhos dos teus companheiros da carne, terás que aprender a ser pequeno no lado de cá, pois o que importa é o tamanho da humildade e do amor no coração para os que estão juntos contigo quando retornares para a matéria densa.

         Sua canoa voltou sem ele, cheia de peixes como ele havia dito.  Assim, o mulato Olimar retornou para as lides de Aruanda. Hoje aprende a ser pequeno, como um soldadinho de Ogum no Astral, uma “criança” - Erê - atuando no reino de Yemanjá, à beira mar e frente as ondas, auxiliando as falanges socorristas nas descargas energéticas e demandas astrais com a magia dos Orixás na sagrada Umbanda. Ele responde pelo nome de Pedrinho da Praia, e seu ponto cantado, chorado, mais para um fado de saudade, diz:
         
Tão grandes as pegadas na areia que eu deixei,
Tão distantes dos entes que amei,
Marei, marei, marei, marei,
Yemanjá é Orixá de lei.


E.T: enredo contado para Norberto Peixoto pela entidade Pedrinho da Praia, que quando se manifesta joga sal grosso em todo o terreiro. É um “cosminho” - ou Erê -, que se apresenta nas giras paramentado como um soldado da idade média. Diz que é pequeno frente aos demais “Oguns”, para domar o enorme orgulho de outrora. Se fortalece para reencarnar como médium na Lei de Pemba, na sagrada Umbanda, e quem sabe não falhar novamente, como todos nós encarnados estamos sujeitos a qualquer momento.
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