quinta-feira, 24 de maio de 2012

O rival

                   Corria o ano de 1920.
                   Interior de uma cidadezinha do interior do estado do Rio Grande do Sul.
                  Imigrantes, alemães, sírio-libaneses, italianos, turcos, franceses. Uma verdadeira babilônia de línguas, vários dialetos, difícil de entender. Mas a linguagem dos gestos, repetidos incansavelmente e a boa vontade ajudavam a quebrar o gelo e eles conseguiram o milagre da boa convivência.
                Vindos para o Brasil em busca de uma vida melhor, porque na Europa havia-se instalado a recessão econômica, a falta de emprego e a fome. Sonhavam em plantar, produzir, alimentar as famílias e principalmente fugir dos horrores da guerra. Entretanto muito destes homens jamais chegara perto de uma lavoura, eram pintores, engenheiros, operários da indústria e do comércio, mas vieram cheios de sonhos com a terra da fartura.
             Foi assim que Francesca, de origem alemã, vinda com a família da Floresta Negra (Bavária), cujo pai era pintor de quadros famoso, com uma sala com suas obras expostas no museu desta cidade, conheceu Armandinho um turco, manhoso, moreno, bonitão.
               Ela era de uma beleza suave, muito loura, pela alva e cabelos da cor do trigo. Sonhadora, apesar do trabalho que passaram, porque não sabiam cultivar a terra. Aprenderam na marra, no sacrifício, vencendo a falta de todos os recursos necessários para sobreviver.
               Venceram. Ajudando e sendo ajudado pelos demais imigrantes. Vida dura. Muito dura.
              As famílias se conheciam e Armandinho não era bem quisto na casa de Francesca. O pai dela um alemão de quase dois metros de altura sabia das malandragens do moço, que de acordo com a mentalidade vigente na época era chegado numa festa com as moças da casa da luz vermelha, que por coincidência ficava na Zona.
             Assim Armandinho quando passava frente à casa de Francesca espichava os olhos o mais que podia para ver se ela estava na janela ou no portão.
            Ela por sua vez também esticava os olhos o quanto podia, através da vidraça da janela para enxergar o moço.
            Olhares furtivos na rua e nos bailes da comunidade.  Suspiros nos encontros aos domingos na praça da cidadezinha.
            Depois de muita insistência e namoro rápido, sempre acompanhados por um membro da família dela, casaram sem nenhuma pompa e sem grandes festejos, que a época não era para desperdício.
             Vieram cinco filhos. Uma escadinha. Ela mal tinha tempo para sonhar, que dirá cuidar dos filhos, da casa e do marido como gostaria. Era uma canseira só. Uma trabalheira danada. O marido era por demais exigente, todo mundo andava na linha, no maior cortado, principalmente ela e as meninas. Não podiam nem olhar para os lados.
                -Moça de família não anda sozinha! Mãe de família só sai com o marido ou com os filhos. É preciso ter decência, para não ficar falada.
                Ele era muito rigoroso e moralista com a família. Dizia que assim protegia a todos. Que se preocupava com o futuro das filhas.
              Armandinho cansou da rotinha da casa e dos filhos e se achava no direito de continuar frequentando a casa da luz vermelha com os amigos, alguns solteiros e outros casados. Achavam muito natural a mulher em casa cuidando dos filhos e eles na maior farra na Zona, afinal eram homens e precisavam desestressar.
             Um dia Armandinho, querendo agradar, presenteou Francesca com um belo galo branco, reprodutor, de vez que eles criavam galinhas para consumo da família, mais outros animais já que tudo ficava muito distante. E o tal do galo por ter ido muito pequeno e no inverno, foi adotado por Francesca que cuidava dele. Era bem tratado demais, segundo Armandinho.
             Pois o galo branco cresceu e se transformou no bicho mais bonito do lugar. Cantava forte, cuidava do seu harém, era excelente reprodutor. E se apegou a Francesca, aonde ela ia o galo ia junto. Protegia a dona e não deixava ninguém chegar perto, nem mesmo Armandinho. Quando ele se achegava o galo se botava nele, era uma gritaria e um rebuliço só.  O bicho era furioso.            
                 Armandinho, homem passional, pura emoção, começou a ficar com ciúmes do animal. Dizia que o galo estava passando dos limites e sua fúria aumentava cada dia mais e seu descontrole também.
            Até que um dia o tal do galo passou das medidas, quando ele tentou abraçar Francesca, o bichano prontamente avançou esporeando e bicando com fúria total. Armandinho se viu encurralado e saiu correndo com o bicho grudado em seus calcanhares. Entrou em casa feito um raio fechando rapidamente a porta da cozinha, não deixando que o galo entrasse junto. Desapareceu dentro de casa gritando enlouquecido e o galo voltou para o pátio junto de Francesca que assistia a cena abobalhada juntamente com os filhos que brincavam por ali.
           Eis que assim como desaparecera Armandinho surgiu no pátio e quando o galo avançou novamente ele pegou a espingarda e deu três tiros no bicho, gargalhando que nem doido e gritando:
          - Acabei com o meu rival! Terminei com esse galo safado!
          A noite teve canja no jantar. Mas Francesca não comeu. Estava muito triste. Pelo galo e pela besteira que Armandinho dissera. Um galo! Rival! Meu Deus a cabeça do homem, só pode estar afetado dos miolos! Que triste! Que desilusão!    
        Pois é... Quando se prega moral com excesso de rigor, exigindo demais dos outros e da família em termos de comportamento, devemos ficar atentos e de sobreaviso, porque normalmente aquele que assim procede tem os maiores comprometimentos e é quem verdadeiramente se comporta mal, atormentando a todos que estão ao seu redor para disfarçar as suas faltas, escapadas e escorregões.

Lizete – Médium do Triângulo
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