sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Os últimos dias da vida de Jesus...

PERGUNTA: — Que nos dizeis dos últimos dias da vida de Jesus?
RAMATíS: Alguns dias antes da crucificação, Jesus deduziu que embora suas idéias fossem bem acolhidas pelo povo em comum e mesmo por muitas pessoas cultas e afor­tunadas, era necessário reavivá-las como novos estímulos doutrinários, pois as suas pregações evangélicas, devido à rotina do mundo material, já denunciavam enfraquecimen­to entre os seus próprios discípulos e adeptos, os quais manifestavam certo desânimo ante a demora quanto à con­cretização do "Reino de Deus", esperado ansiosamente desde há três anos. Aliás, tal situação era justificável, pois aquela gente supersticiosa e imediatista não possuía força espiritual suficiente para alimentar durante muito tempo um ideal que estaria muito acima do prosaísmo da vida humana. Eram criaturas escravas do meio-ambiente, cuja ventura e prazeres dependiam exclusivamente das compen­sações materiais.

Jesus também se preocupava com os laços de família e as obrigações que ainda prendiam diversos dos seus discí­pulos mais chegados, os quais se mostravam ansiosos pelo término daquela peregrinação incessante pelas cidades da Judéia. Era evidente que todos os dias surgiam partidários entusiastas, tal como ainda hoje acontece nos movimentos políticos, filantrópicos, de relevo social. Mas em breve esse entusiasmo se arrefecia, passado o efeito das primeiras emo­ções e também pela demora dos bens aludidos por Jesus.
O desalento crescia à medida que prosseguiam as pere­grinações no diapasão costumeiro. E os discípulos não escondiam o desejo ardente de retomo ao lar para a vida em comum com a família. Pedro e outros não dispunham de tempo suficiente para seguirem o Mestre, pois eram casados e sua família os requeria freqüentemente devido às necessi­dades da casa; e os discípulos que eram solteiros, sustenta­vam os pais velhos e parentes enfermos. Ademais, as prega­ções de Jesus eram cada vez mais importunadas pelos espiões e esbirros do Sinédrio, que semeavam sarcasmos e provocações para perturbar a harmonia entre os ouvintes. E o pior era que Jesus não permitia nenhuma reação vigoro­sa, alegando que sua doutrina era só de Amor e Paz.
Embora os partidários mais fiéis continuassem devo­tando os mais puros sentimentos à causa cristã, enfraque­cia-se aquela harmonia dos primeiros dias e o empreendi­mento perdia vitalidade. Elementos novos, mas interessados nos proventos que poderiam advir da fundação do novo reino prometido por Jesus, concorriam para as falsas inter­pretações do Evangelho entre os demais, solapando assim as bases do Cristianismo. Depois se mostravam insatisfeitos, impacientes e com idéias próprias ocasionando discussões estéreis, que visavam apenas objetivos materiais. Aliás, é a própria história sagrada que menciona a zanga de Pedro contra essas insatisfações e desavenças freqüentes no seio do grupo interesseiro, e que o leva a protestar junto ao Mestre Jesus, alegando:
— "Mestre! Essa gente não segue os vossos ensinamentos!" E Jesus, sempre sereno e tolerante, então lhe responde:
— "Que te importa que não me sigam, Pedro? Segues-me tu!" Jesus, persuadido de que não mais seria conveniente prosseguir no diapasão costumeiro, rebuscou no âmago do coração o sentimento mais temo e na mente a solução mais sensata, para então ajustar e unir, apaziguar e incentivar, prometer e realizar. Malgrado o calor afetivo, a fidelidade espiritual dos discípulos mais íntimos às suas idéias eleva­das, reconhecia que a inquietação, o desânimo e a impaciên­cia, realmente estavam lavrando fundo na alma de seus seguidores. Os adeptos mais decididos achavam Jesus demasiadamente conciliador, tolerante e acomodatício, que só resolvia as querelas com os seus detratores através das armas empíricas do perdão, da resignação e da paciência. Isso, segundo eles, desacreditava o movimento cristão, pois a interferência de adversários cínicos e mordazes semeava a descrença naquela gente simples e tola, que deixara seus bens materiais para seguir um profeta nômade.
Achavam que, decorridos três anos nessa expectativa, já era tempo de se tentar empreitada corajosa, para dar posse ao Mestre como o Rei de Israel e o"Salvador" do povo judeu. Em face das queixas e dos descontentamentos que ouvia em torno de si, Jesus concordou em tentar-se algo para avivar a sua doutrina, mas isso sem desmentir os princípios cristãos do amor e do perdão que fundamentavam os seus ensinos. Porém, de relance, não via um modo eficiente para solucio­nar aquele impasse delicado, o que devia ser feito o mais breve possível, pois o seu organismo também apresentava-se combalido e ele temia partir antes de consolidar sua obra.

Do livro "SUBLIME  PEREGRINO" 

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