quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mediunidade e sacerdócio

 

( este texto faz parte do livro UMBANDA E MEDIUNIDADE, no prelo pela Editora do Conhecimento - ao repassar, manter os créditos de direito autoral )


        Vez que outra perguntam-me qual a minha opinião sobre fazer-se ou não pai ou mãe espiritual para se estar à frente de um congá. Ou seja, a necessidade de consagração ritualística por outro sacerdote médium já praticante para que o aspirante tenha maior segurança em ser um chefe de terreiro. Não é fácil responder esta pergunta.
       Geralmente, hoje em dia, o caminho do médium inicia quando se dá a sua primeira incorporação e ele precisa educar a sua mediunidade. Aí procura um terreiro e no dia a dia vai aprendendo os rituais da casa. Em certo momento de sua caminhada, seu guia informa que o seu aparelho tem carma probatório para ser chefe de terreiro e precisa abrir o seu congá. Ao menos deveria ser assim, mas nem sempre o é. Por vezes o dirigente do terreiro chama o médium e o informa desta situação e que ele deve se preparar para esta missão. Isto é bastante comum de ocorrer e o futuro dirigente se apóia no atual em todo o seu aprendizado para o sacerdócio umbandista que se avizinha. Após a sua consagração, é assistido pelo seu antigo dirigente nos trabalhos iniciais para a fundação e inauguração da nova casa, até ter mais confiança que só a prática dá. As coisas vão se ajeitando, a pequena casa vai crescendo e quando menos se espera lá está o chefe de terreiro, que um dia foi um médium aspirante, sendo procurado por algum filho espiritual de sua corrente que se diz orientado para abrir seu terreiro e o ciclo se reinicia.
           Em outras oportunidades, o médium recebe instrução direta do seu guia no astral para abrir seu congá e se encontra vinculado a um terreiro que o dirigente não tem cobertura mediúnica para conduzi-lo nesta missão ou uma das partes não confia suficientemente na outra. Então o guia o libera e o intui para que procure e ache um dirigente sério , capaz, idôneo, que não cobre, para que o seu aparelho tenha confirmado num rito na terra a sua condição de chefe de terreiro. Isto objetiva, além do amparo mediúnico que a vinculação a uma corrente - de fato de umbanda - em funcionamento dará ao principiante em todas as demandas que advirão desta sua iniciativa de abrir uma nova casa, dar confiança ao novato que assim encontra referências seguras e amparo na experiência maior do sacerdote em exercício. Foi o que me aconteceu comigo. Fui orientado a procurar um dirigente sacerdote fora do terreiro que me encontrava. Até hoje agradeço aos Orixás a ajuda imensurável de Mãe Iansã, sacerdotisa fundadora do Centro Espiritualista Caboclo Pery – Rio de Janeiro. Na verdade, sua egrégora já estabelecida, através da sua firme mediunidade, experiência de anos e esmerada direção espiritual, aliado aos profundos conhecimentos de magia desta psicóloga das almas que me carregou no colo e ao grupo que recém se formava, atraindo para si toda a demanda que houve quando da dissidência de 12 pessoas que saíram de um centro para fundar outro. Nunca me esquecerei da entidade Ogum de Malê – africano – que me acompanha até hoje, que se apresentou logo após conhecer Mãe Iansã deslocado da sua corrente astral, e que me deu e dá cobertura nos momentos mais difíceis.
 
        De uma maneira geral, assim a umbanda vai crescendo na atualidade. Diferentemente de antigamente em que as manifestações mediúnicas se davam em garagens, cozinhas e pátios residenciais e os guias começavam a curar e a fazerem suas mandingas. Com o tempo crescia a quantidade de atendidos, cambonos e apareciam outros médiuns. Ninguém falava em iniciações, sacerdotes e escolas pagas, até porque não existiam.
        Hoje em dia pipocam aqui e ali os cursos de sacerdócio pagos, chegando mesmo a serem mais importantes que a própria mediunidade do interessado dependendo do nome famoso do sacerdote que ministra ou criou estes cursos sacerdotais. Há ainda os que afirmam que não se precisa ter mediunidade para ser-se um sacerdote, o que é impensável na umbanda. Mas, diante de tanta iniciação, mestres, pais, mães, escolas, cursos, títulos, diplomas, honrarias, como fica a mediunidade e os milhares de médiuns que não foram iniciados por ninguém, não fizeram nenhum curso e estão anonimamente a frente de seus terreiros fazendo a caridade há anos? Pensemos profundamente na sabedoria deste fato inconteste.
       Obviamente que ser sacerdote independe de ser reconhecido como tal. Lembremos o médium Zélio Fernandino de Moraes que aos dezessete anos manifestou o Caboclo das Sete Encruzilhadas e anunciou uma religião no dia seguinte. Se fosse aos dias de hoje, infelizmente iriam fazer cara feia e perguntar quem foi seu pai ou mãe no santo e onde fez o curso de sacerdote, desmerecendo a limpidez do mediunismo frente à desvinculação de uma raiz ritualística ou escola.
        Observemos que a função sacerdotal, que existe mesmo que assim não se denominem muitos dirigentes, não deve ser sinônimo de status e poder temporal. Reafirmamos o tremendo compromisso de humildade, de servir ao próximo e de retidão frente aos filhos espirituais da corrente e da comunidade do terreiro e da sociedade como um todo que deve mover o espírito sacerdotal.
       Claro está que a vivência interna, templária, ritualística e litúrgica, bem como todo o aprendizado que os anos dão a um médium constante em uma corrente mediúnica, guardadas as variações de uma agremiação para outra, são muito importantes. Todavia, é impensável exigir-se uma outorga de outro sacerdote encarnado para que haja reconhecimento público ao aspirante. Quem faz a iniciação são os guias no astral e cabe a mediunidade ser o diploma que credenciará ou não quem quer que seja. Digamos que pode haver ritos de confirmação e firmeza na terra, mas se não são antecedidos do preparo no astral antes de reencarnar serão inócuos e só servem para o reconhecimento das multidões e acender a chispa que alimenta a fogueira de nossas vaidades.
                  Antes de nos preocuparmos com quem iniciou quem, avaliemos a vibração, a moral, o desinteresse e a caridade que é feita num terreiro dirigido por sicrano ou beltrano. O resto são pompas e insígnias terrenas, muitas vezes necessárias para que vençamos nosso medo de assumir tarefas maiores frente ao mediunismo.

           Não esqueçamos que o alicerce principal da umbanda é a mediunidade e sem ela a religião não se sustenta. Mesmo que muitos entendam mediunidade como “mera” incorporação, um grasso erro e reducionismo dos complexos processos de comunicações com o além, que se dá também pela vidência, audiência, telepatia, clarividência e clauriaudiência pelos desdobramentos dos corpos espirituais. Há ainda pessoas que dizem que esta “coisa de desdobramento” não é de umbandista. Sendo uma capacidade sensitiva extra-sensorial, não se vincula especificamente e nenhum culto ou doutrina da Terra, tendo aplicação universal e é uma capacidade natural dos espíritos encarnados e desencanados.
          É inconcebível um sacerdote umbandista falando e orientando uma comunidade enorme sem ter mediunidade ativa. Tentem, abram um terreiro sem o escudo mediúnico e vejam o que acontece e quanto tempo durará. Não se mantém, não se sustenta, explode rapidamente pelas mãos hábeis do astral inferior.
                       Obviamente há o outro lado desta moeda. A super valorização da mediunidade. Explico: muitas médiuns entendem que o espírito guia deve saber e fazer tudo, caindo numa preguiçosa acomodação.  Claro que as entidades sabem muito mais que nós e aprendemos seguidamente com eles. Enxergam nossos erros, mentiras, vaidade e egoísmo. Sabem que médiuns ególatras e amparados em sentimentos viciados quando decidem abrir um terreiro serão portas abertas para as zonas do umbral inferior ao invés de serem  canais de recepção deles, dos guias. Abrir um centro de umbanda é antes de tudo um tratado de ética cósmico, um recebimento de procuração dos espíritos que serão os verdadeiros mantenedores da força- axé – da casa. Além dos aspectos litúrgicos e rituais que um sacerdote deve conhecer e seguidamente estar aplicando, adotando elementos e fundamentos magísticos embasados nas leis de causa e efeito e incondicional respeito ao livre arbítrio das criaturas humanas, ainda existem o conhecimento e experiência que só se consegue após anos de vivência templária. Assim, mediunidade e sacerdócio são uma via só, mas de duas mãos. Quando uma mão avança sobre a outra estamos na contramão e podemos nos machucar. Ou seja, como não existem mais médiuns inconscientes, quanto mais o medianeiro sacerdote à frente de uma congá for diligente, estudioso, moral, ético, altruísta, mais amparo e cobertura mediúnica dos guias terá.
    Concluindo, na umbanda que praticamos um sacerdote não prescinde de ser médium, ao contrário de outras religiões e cultos, que o sacerdócio não tem como pré-requisito a mediunidade. Assim, se o que te move ao encontro da consagração sacerdotal não é a vontade inquebrantável de servir ao próximo através da mediunidade e teus olhos brilham com as pompas litúrgicas que acompanham as hierarquias religiosas inflamando teu disfarçado ego com a ambição de poder na aplicação dos rituais alcançada com os títulos terrenos  de pai ou mãe de santo, pai ou mãe no santo, pai ou mãe espiritual, padrinho, madri­nha, cacique, “cacica”, mestre, mestra, comandante, “comandanta”, chefe, “che­fa”, ialorixá, babalorixá; natural que deva procurar outro terreiro mais afim com os teus anseios espirituais, mesmo que não seja na umbanda. Assim também muitos vêm para a umbanda de outros cultos, como o pólen das flores que se espalham num imenso jardim existencial, plasmado pela diversidade das almas neste planeta.         


Preto velho está cansado
De tanto caminhar
Preto velho está cansado
De tanto trabalhar
Firma o ponto no terreiro
Que é longa a caminhada!
Quem tem fé tem tudo
Oi quem não fé não tem nada!


 

             
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