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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O CANTAR DAS FOLHAS* - uma tradição que deve ser mantida na Umbanda.

              *Por Norberto Peixoto.


Antigamente quando se macerava as folhas para as lavagens de cabeça ou para banhos mais diversos, tínhamos o hábito de cantar. Dependendo da folha era entoado um determinado cântico. Mesmo o ritual do amaci – lavagem de cabeça -, dito tradicional por conservar um método que se repete e se mantém inalterado no tempo, já não é tão idêntico como os do passado. Vivemos um tempo difícil, de “ausência” de tempo, rotina de correria e muita pressa. Impossível determinar-se com precisão, a época em que os médiuns umbandistas tinham mais tempo, inclusive para se reunirem calmamente e cantarem macerando as folhas litúrgicas.


Certos rituais peculiares à vida religiosa de uma comunidade de axé, ou terreiro de Umbanda, deveriam ser mantidos e serem “imunizados” contra as mudanças ou adaptações que os descaracterizam e enfraquecem. A tradição aprendida e vivenciada com os mais antigos, antepassados e ancestrais  pelo canal da mediunidade é roteiro seguro que fundamenta e mantém a força magística, etéreo-astral vitalizadora, dos elementos ritualizados e consequentemente dos adeptos que se associam no agrupamento religioso.
A diferença entre costume e tradição pode ser perfeitamente ajustada à idéia de rito religioso - o costume nas sociedades tradicionais não impede as inovações, ao contrário de muitos costumes – não todos - nas sociedades religiosas, que estão relacionados aos sistemas de crenças afro-ameríndios, onde os espíritos ancestrais são cultuados e o passado histórico está no presente dos ritos vivenciados, explícito nos mitos, lendas, cantigas e provérbios que por sua vez legitimam-nos. Obviamente os usos e costumes religiosos na Umbanda, variam segundo a origem dos terreiros, onde seus dirigentes fundadores trazem uma bagagem iniciática própria de cada terreiro em que vivenciaram o seu aprendizado e formação sacerdotal mediúnica. Sem dúvida foram anos de convivência em comunidade e muitos processos vivenciais catárticos com os guias espirituais para adquirirem conhecimentos sólidos sobre os orixás, seus mitos, lendas, ritos, danças, cânticos, folhas...
O orixá "dono" das folhas é Ossaim, aquele que domina o ritual, liberando e expandindo o  "axé" das folhas, pois sem folha não há orixá (Kosi ewe, kosi orixá) e sassanhe é o cantar para Ossaim ou cantar para as folhas. Os cânticos, ladainhas e os textos cantados – hinários - são empregados para a transmissão dos conhecimentos, o que requer adequada interpretação, e também são fixadores vibratórios entre os 2 planos de vida; o dos espíritos e dos encarnados. Agem com grande propriedade quando associados aos atabaques, como potentes indutores do transe mediúnico. Objetivamente, podemos afirmar que os pontos cantados são instrumentos litúrgicos e verdadeiras imprecações mágicas – encantamentos – que potencializam o prana vegetal (axé verde) contido nas folhas, alteram nossas ondas mentais e facilitam a sintonia com os espíritos guias da Umbanda que movimentam estes fluídos em conformidade aos objetivos magísticos dos trabalhos.

Neste sentido, tem uma lenda de Ossaim que é esclarecedora: 

"Ossaim, quando Obatalá distribuiu os domínios da terra entre os orixás escolheu as plantas, que passou a estudar e conhecer profundamente. Aprendeu que elas são o segredo da cura e da vida. Um dia Xangô ordenou que Iansã, com seus ventos, fizesse as folhas voarem para seu palácio, para que todos pudessem ter poderes como os de Ossaim. Iansã fez o que Xangô pediu, gerando um vendaval, que soprava todas as folhas em direção ao palácio de Xangô. Ossaim, entretanto, percebendo o que ocorria, chamou as folhas de volta para a mata, com suas palavras mágicas. E as folhas obedeceram. As poucas que já haviam chegado ao palácio de Xangô perderam o axé. Ossaim, entretanto, para evitar a inveja dos orixás, deu uma folha para cada um e ensinou o segredo delas, seus efós - as cantigas de encantamento -, sem as quais as folhas não funcionam". 

Muita paz, saúde, força e união.

Norberto Peixoto.
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