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domingo, 8 de setembro de 2013

A "prova" da obsessão.

PERGUNTA: — Podeis nos explicar melhor o caso de espíritos que devem reencarnar com o destino fatalista de ser obsidiados, a fim de despertarem os membros de sua família para os postulados da vida e que depois são curados pelo Espiritismo? Estranhamos essa condição de a criatura ser fatalmente vítima da obsessão, quando temos aprendido que ninguém renasce na Terra com a determi­nação de sofrer qualquer castigo ou penalidade proposita­damente, sob a imposição dos espíritos superiores.
RAMATÍS: — Os Mentores Espirituais nunca determi­nam que certos espíritos devam reencarnar-se sob o estigma implacável de serem obsidiados, vítimas de homicídios ou de acidentes fatais, o que seria uma punição deliberada e incom­patível com a Bondade do Criador. Os espíritos faltosos são encaminhados para a vida física sob o comando de suas pró­prias faltas e dos efeitos do desregramento cometido nas exis­tências passadas; eles são situados carmicamente no seio das influências mórbidas ou maléficas semelhantes às que tam­bém alimentaram ou produziram no pretérito.
     A nova existência física transforma-se-lhes numa "pro­babilidade" favorável ou desfavorável, dependendo funda­mentalmente do modo como eles passam a agir na matéria entre os seus velhos comparsas, vítimas ou algozes pregres­sos, pois ficam na dependência de suas próprias paixões vícios ou virtudes. Desde que se mantenham de modo digno, vivendo amorosamente em favor do próximo, também pode­rão sobreviver sem conflitos ou tragédias, fazendo jus ao socorro espiritual dos seus mentores, que de modo algum desejam castigá-los, mas apenas recuperá-los espiritualmen­te. Sem dúvida, o espírito que, embora renascendo no meio de malfeitores, ou mesmo sendo alvo de qualquer obsessor cruel, se devote heroicamente ao bem alheio, exercite a sua ternura, o seu amor e magnanimidade para com todas as criaturas, sem distinção de crença, raça ou casta, também logra maiores probabilidades de sobreviver na matéria à dis­tância de qualquer violência ou fim trágico.

PERGUNTA: — Como poderíamos avaliar a natureza dos delitos desses espíritos que renascem na Terra com essa `probabilidade" de sofrer a prova da obsessão, porque no passado semearam a perturbação mental, praticaram o suicídio ou se entregaram à prática do mal?
RAMATÍS: — É evidente que a revolta, o ateísmo, a sensualidade ou o pessimismo são bastante estimulados nas criaturas pelos maus escritores, oradores subversivos e líde­res intelectuais maquiavélicos que, influenciados pelo exis­tencialismo apocalíptico da época, usam de sua inteligência e agudeza mental para cavar fundo na alma dos seus leito­res e admiradores invigilantes. Certas filosofias crônicas e doutrinações modernas induzem o homem a confundir e tomar os raciocínios e os malabarismos brilhantes da mente terrena como se fossem bens supremos do espírito imortal.
     Elas aconselham aos seus discípulos o epicurismo da "fuga interior", liberando-os de quaisquer obrigações para com alguma autoridade espiritual ou ente supremo, e ten­tam convencê-los de que serão humilhados pelo fato de con­cordarem ou se curvarem à idéia de um Deus, que reina acima dos valores do intelecto humano. Esses espíritos demasiadamente intelectivos, que empregam o seu talento para semear a descrença, a inconformação, a rebeldia e a ociosidade espiritual, que vivem preocupados excessivamente em fundar escolas filosóficas exóticas, que isentam o homem de sua responsabilidade espiritual e o incentivam a uma existência puramente sensual, dificultam a perfeita aplicação da Lei de Evolução na marcha progressiva das criaturas de menor acuidade mental.
     E de conformidade com essa mesma lei sideral, de que a "colheita é sempre de acordo com a sementeira", tais filósofos aniquilantes terão de corrigir em vidas futuras os desvios que provocaram nos seus tolos discípulos, saneando-lhes os racio­cínios insensatos e fazendo-os reconquistar o respeito perdi­do. Desde que semearam confusões mentais e psíquicas em outros cérebros invigilantes, eles devem encarnar no seio de famílias cuja crença obsoleta ou infantil também os retarde na senda do progresso espiritual. Então cumpre-lhes ajudá-las a se libertar do negativismo secular ou do dogmatismo asfixiante, a fim de compensarem os prejuízos causados pelos postulados contraditórios que pregaram no passado.
      Nascem, pois, no futuro, com esse implacável dever de despertar seus velhos familiares ou comparsas, ainda atro­fiados pelo culto aos dogmas aguilhoantes ou completamen­te apáticos à vida imortal. Graças ao seu sacrifício e à con­seqüente cura pela doutrina espírita, esses espíritos pertur­badores pregressos terminam reajustando-se numa posição heróica, junto daqueles de cuja confiança, candidez ou vul­nerabilidade mental abusar.

PERGUNTA: — Então poderíamos supor que, muitas vezes, são os próprios mestres e líderes de filosofias ou dou­trinas perturbadoras que depois devem imolar-se em futu­ras existências físicas, para despertar os seus próprios discí­pulos ou seguidores iludidos no passado?
RAMATÍS: — Sem dúvida; aqueles que hipnotizaram algumas almas para o culto de suas doutrinas subversivas, ani­quilantes, negativistas ou fesceninas renascem posteriormente com a obrigação de se tomarem os"alvos"principais e respon­sáveis pela reforma e recuperação espiritual dos seus antigos seguidores, ainda confusos na senda da espiritualidade.
      Sob a disciplina férrea, mas justa, da Lei Sideral, que retifica mas não castiga, eles retomam ao cenário do mundo físico e se situam no seio das familias terrenas, comprometi­dos em despertar da ilusão intelectiva, da hipnose dos senti­dos passionais ou da escravidão do ateísmo infeliz aqueles mesmos que os seguiram tolamente no passado. Mas nessa tarefa sacrificial nada lhes é imposto arbitrariamente; é a sua razão esclarecida e a certeza de reduzir o seu débito cár­mico o que os faz aceitar conscientemente o serviço doloro­so a favor do próximo, e também em seu próprio benefício.
     É certo que a família ignora a razão dos acontecimentos dolorosos que eclodem, constituindo as desventuras no roteiro evolutivo em comum. E assim se formam os quadros de sofrimento redentor; aqui, é o filho que nasce com a enfermidade congênita e arrasta-se torturadamente, provo­cando angústias nos seus consangüíneos; ali, é o chefe da família que, arrasado por cruel enfermidade e resistente a todos os esforços da Medicina oficial, marcha tristemente para a cova terrena, lacerando os corações familiares; acolá, estranha enfermidade agride a filha querida, fazendo-a pal­milhar a "via-crucis" de todos os consultórios e instituições psicopáticas, enquanto faz estrugirem gritos estranhos e mágoa a todos com palavras de baixo calão.
     Mas a Lei está vigilante, e quando o desespero já se ins­talou no seio da família acabrunhada, eis que se opera então o milagre: sob fortuita coincidência, surge o médium cura­dor, que faculta ao filho recuperar os movimentos físicos atrofiados desde o berço, ou restitui a saúde ao chefe da casa já desenganado pela Medicina, ou ainda, graças à dedicação de alguns adeptos da doutrina espírita, esclarece-se o espíri­to obsessor que torturava a filha querida. Deste modo, o Espiritismo é aceito no lar, que se faz venturoso, e os postu­lados da imortalidade do espírito penetram na alma daque­les que viviam escravizados cegamente aos dogmas infantis ou à absoluta descrença.
      Abalam-se as velhas convicções ateístas e os sectarismos condenáveis esposados no seio da parentela, graças à cura milagrosa de alguns dos seus familiares através da singeleza da água fluida, do receituário mediúnico ou do passe espírita. E o Alto, através daqueles mesmos que, muitas vezes, no pas­sado, abusaram do mando e do intelecto em desfavor do pró­ximo, ministra-lhes novos conceitos de vida superior, servin­do-se de suas carnes maceradas ou dos seus nervos atrofiados. Os conceitos errôneos ou negativos de ontem são compensa­dos pelo sacrifício da dor física ou psíquica do presente.

PERGUNTA: — No caso do filho doente ou da filha obsi­diada que, depois de curados miraculosamente pelo Espiri­tismo, convertem a família descrente, não poderá tratar-se de espíritos bons, que aceitam o sofrimento sacrificial com o intuito magnânimo de ajudar os seus afetos encarnados para mais breve ascensão espiritual?
RAMATÍS: — Já vos dissemos que, mesmo no Espaço, não há regra sem exceção, pois Jesus, espírito excelso e justo, não hesitou em mergulhar nas sombras do vosso mundo, para salvar os homens ignorantes de sua realidade espiri­tual. Sem dúvida, espíritos boníssimos também descem à carne e se ajustam à família consangüínea terrena, com o fito único de despertar espiritualmente os seus velhos afetos milenários. Em alguns casos, eles se sacrificam heroicamen­te a fim de socorrer, os próprios adversários pregressos e que ainda se demoram hipnotizados pelas filosofias destrutivas ou doutrinas enfermiças do mundo material.
     Muitas vezes, quando essas almas sublimes comprovam a inutilidade dos seus esforços para inspirarem do Além os seus pupilos negligentes e conduzi-los ao Bem e à Sabedoria Espiritual, decidem-se a habitar o mundo físico por amor a eles. Assim como foi o excessivo amor de Jesus que, apieda­do do sofrimento humano, o conduziu para a Terra, e não alguma culpa cármica de crucificação, muitas almas angéli­cas também abandonam o plano paradisíaco sob o penoso -sacrifício de se encarnarem no seio da família terrestre para despertar-lhe os sentimentos crísticos.
     Muitas delas, quando renascem junto de adversários empedernidos, enfrentam as situações mais cruciantes para- atenuar a fereza, o ódio e a violência que ainda vicejam entre eles. Movidas pela compáixão do anjo, envidam todos os esforços para subtraí-los às tragédias odiosas, que no futuro engrenaram os carmas torturados. Algumas vezes, são sacrificadas pelas próprias almas delinqüentes, às quais tentam salvar dos padecimentos inenarráveis que as espe­ram nos charcos do astral inferior. Mas ainda sentem-se feli­zes quando conseguem atear-lhes o fogo do remorso ou do arrependimento, provocando-lhes os primeiros impulsos de redenção espiritual.
     Repetimo-vos, no entanto, que Deus não é vingativo, nem sádico, e assim não cria a obsessão incurável, a doença fatal, o aleijamento deformante ou qualquer outra desventu­ra destinada ao ser humano. Ele só objetiva a recuperação venturosa de todos os seus filhos eternos. Tais acontecimen­tos trágicos ou mórbidos são apenas frutos exclusivos da debilidade moral e da ignorância do homem que mal balbu­cia as primeiras letras do alfabeto da vida imortal.

Do livro MEDIUNISMO. 
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