quarta-feira, 22 de maio de 2013

Lá onde os ventos dobram - muitas são as moradas do Pai.

Enquanto cavalgava em meio à plantação, Solimar escutava o barulho do vento balançando o trigal, em ondas que revoluteavam numa coreografia estranha. Pareciam minúsculos seres entoando uma canção antiga e mágica que incentivava os vegetais a madurar rapidamente, conservando sua beleza etérea por mais tempo. Desfrutando daquele momento sob os reflexos de um sol dourando e morno que dava uma visão esplêndida aquela vastidão, onde a vista se perdia em contornos triunfantes com a linha azul do horizonte, ela respirou prazerosamente enchendo os pulmões com aromas que lembravam sua infância. Dos tempos de opulenta felicidade junto com a família, dos animais criados na fazenda, do pomar cujos frutos têm um sabor inigualável, da casa grande com suas cortinas brancas balouçando com a brisa da manhã. Recordou e sentiu o doce cheiro dos pães e bolos assando no forno de tijolos e que deixavam um perfume gostoso no ar. Viu-se pequena tentando subir nas prateleiras da despensa e onde entrar era uma festa para os olhos e para a gulodice. Tinha um pouco de tudo por ali, de goiabadas cascão a pessegadas e figadas em caixinhas, doces em conserva, queijos, embutidos de todos os tipos, feijão e arroz em sacas. Tudo plantado, colhido e feito em casa. A mistura das especiarias e aromas é algo inesquecível para quem teve a felicidade de experimentar. O fogão a lenha com o fogo crepitando, pinhões assando na chapa de um lado e de outro a polenta tostando. Um festival cheirando a cozidos, temperos, gostosuras, regadas a amor, carinho e rituais mágicos que só os antigos sabiam tão bem proporcionar, porque viviam intensamente a realidade na qual estavam inseridos.
              
              O cavalo de Solimar estava quieto, esperando que ela indicasse a direção que deveria seguir. Chamava-se Ventania por ter crinas brancas que lembravam nuvens de algodão que revoavam enquanto cavalgava. Moravam no interior do Rio Grande do Sul e a fazenda ficava há alguns quilômetros da cidade de Passo Fundo.  A família gostava das lides campeiras e passavam a maior parte do ano por lá. Após desfrutar da paisagem por longo tempo Solimar distraidamente, com os pensamentos fervilhando, tomou o rumo que levava a uma colina, coberta de mato nativo, tendo bem ao centro uma cabana abandonada. Como aquele lugar era alto e ao redor da mesma havia um bambuzal, plantado por não se base quem, apresentava um aspecto sombrio talvez pela combinação inusitada de verde com o vento constante, balançando as folhas sem parar. Os mais velhos quando se referiam ao local diziam: - Lá onde os ventos dobram e as borboletas dançam! Era o suficiente para manter as crianças afastadas, espiando de longe. E advertiam: - Quem se aventurar vai ficar preso lá dentro. E tem mais, em noites de lua cheia ouvem-se lamentos entrecortados de soluços.

               Assim ninguém era doido suficiente para passar por lá, principalmente em noites de lua cheia. Comentavam que tinham visto luz de velas dentro da cabana. Que os animais não pastavam naquele local e nem os cães subiam a colina. Uma aura de mistério envolvia o lugar e o silencio era tanto que doía na alma daqueles que se arriscavam. Entrava no coração e a tristeza fazia morada, restando apenas ao sujeito fazer novenas sem fim, para livrar-se de tamanha angústia.

               Distraída Solimar começou a se aproximar e Ventania estancou relinchando, batendo os cascos dianteiros no chão, inquieto, querendo sair dali. Ela olhou hipnotizada,  lembrando-se das histórias de sua infância e com o coração batendo acelerado. Seria realmente verdade? Tantas vezes espiara da varanda em noites de lua cheia, para ver a dança das borboletas, mas somente escutava o barulho do vento no bambuzal e a avó dizendo que não era bom espiar, pegando a mão dela e levando-a ao quarto para dormir. Ela passava a noite acordada ouvindo os sons trazidos pelo vento.

               Pensando em apear do cavalo para olhar de perto a cabana das suas memórias infantis, prendeu o pé no estribo e caiu, machucando o tornozelo. Desatinada de dor, sem ter como andar, chamou Ventania e se atirou por cima do animal, que atendendo ao apelo da dona, voltou vagarosamente para a casa. Solimar olhou para o lado da cabana e divisou na esquina onde os ventos dobram pequeninas borboletas, com suas asas transparentes, dançando e cantando. Forçou a visão, mas a dor a fez perder o foco e os sentidos.  Acordou com mãos tirando-a do cavalo e levando para dentro de casa. Falavam todos ao mesmo tempo. Queriam saber onde andara. Eram perguntas que ela não tinha condições de responder, estava tonta e não lembrava muito bem o que acontecera. Precisou ficar deitada por uns dias, sem poder andar, nem cavalgar que era sua paixão.

               Recostada nos travesseiros, conversava com a empregada mais antiga da casa, quando Ventania se aproximou da janela e num relincho suave, colocou o focinho para dentro, para ser afagado pela dona. Ela acariciava o animal quando teve sua atenção voltada para algo que se grudara em suas crinas. Viu uma estranha asa cintilante, transparente, com as cores do arco-íris. Tão sedosa e macia que não conhecia nada parecido. Olhou instintivamente pela janela e divisou ao longe a cabana no alto da colina. Será que era a asa de uma borboletinha dançarina? Acontecera ou não passara de um sonho? Em seus ouvidos ecoavam acordes musicais de uma canção desconhecida, misturados aos sons do vento ao passar pelo bambuzal. Olhou para onde Mãe Mima estivera sentada e não a viu.

       Tomada de curiosidade pela asa minúscula que tinha em suas mãos, num esforço supremo, levantou da cama, saiu pela porta da sacada que havia no quarto e montou em Ventania.  O cavalo trotou suavemente, subindo a colina com cuidado. Pararam alguns metros a frente da porta de entrada, então Solimar olhou a  sua volta e notou algo diferente. A cabana parecia nova, as janelas e portas que estavam caindo tinham sido recuperadas, cortinas creme e ao olhar para o telhado, percebeu fumaça saindo pela chaminé. Enquanto tentava entender a modificação da paisagem, seus ouvidos atentos escutaram a suave melodia, trazida pelo vento, tirando sons do arvoredo. A porta da cabana abriu e Mãe Mima apareceu na soleira, acenou chamando-a, alegre pela sua chegada. Ela correu e se atirou nos braços daquela que havia cuidado dela desde seu nascimento. Entrou na pequena sala e viu antigos empregados da fazenda. Estranhou, pois sabia que todos estavam mortos há mais de dois séculos. O que estava acontecendo? Confusa virou-se para a avó e viu-se no espelho da sala, com uma roupa de época que gostava de usar nas festas da sociedade local. Olhou incrédula para Mãe Mima e para a avó e as duas a enlaçaram carinhosamente, fazendo-a sentar-se entre elas e contaram então a história de sua vida. Enquanto elas falavam, um filme passou ante seus olhos e reviu as cenas, toda a dor e o sofrimento de seu desencarne na flor da juventude, devido a uma forte pneumonia, contraída por cavalgar no inverno em dias de chuva.  Sentiu todo o desespero da família, na tentativa de salvá-la junto com a dedicação do médico que passara dias lutando para resgatá-la das garras da morte. Fora naquela cabana que ela cansou de lutar com seu corpo doente dando seus últimos suspiros. Como uma flor foi colhida em sua beleza plena e com casamento marcado. Deixou os pais, o noivo a quem amava com todas as suas forças e os empregados que considerava parte de sua família, órfãos de sua companhia. E não tendo aceitado a morte prematura continuou a vagar por ali. Haviam se passado dois séculos e os antigos moradores da fazenda que tinham por ela carinho genuíno, após o desencarne ficaram por perto para protegê-la e ampará-la. Ela ficara na casa grande e com a partida de todos seus entes queridos olhava pela janela e via a casinha da colina, porém não tinha coragem de se aproximar. Mãe Mima então junto com os amigos espirituais que ajudavam em seu despertamento, lançaram mão das lembranças infantis porque sabiam que assim despertariam a sua curiosidade. Atraída pelos mistérios das histórias que sua avó contava criou coragem para se aproximar e compreendeu que já não fazia parte deste mundo material. Foi acolhida e encaminhada para um hospital no astral, pois necessitava recuperar suas energias combalidas durante tanto tempo na erraticidade vagando e refazer seus corpos, estudando e trabalhando para dar continuidade a sua caminhada evolutiva. De vez que no mundo astral todos interessados em progredir se ocupam com atividades úteis, tanto para si como em benefício de outros mais necessitados e menos esclarecidos. A vida seja em que plano for é repleta de oportunidades, basta querer e ter boa vontade em fazer algo, por mais simples que possa parecer, nos tirando da inércia de esperar que milagres aconteçam.

               Depois de um tempo em recuperação e preparação na colônia astralina a que fora recolhida, recebeu a notícia que se aproximava a hora de um novo estágio na matéria, para colocar em prática o que aprendera. Inicialmente ficou apreensiva, porém acalmou-se quando teve a confirmação de que seus amigos estariam com ela, mesmo não sabendo quais seriam.  Dias mais tarde foi atraída irresistivelmente para um lugar estreito e escuro, de uma suavidade e aconchego sem igual. Sentia ondas de carinho que atravessavam aquelas barreiras e confortavam seu coração. Ouvia vozes amorosas que entoavam melodias singelas e carregadas de bons sentimentos. Esperou com ansiedade até que se viu transportada por um túnel apertado e o medo a sufocou, começou a gritar e debater-se até que olhou para o lado e reconheceu, ali bem pertinho, chorando de emoção o seu grande amor que aceitara reencarnar e recebe-la como filha, estendendo os braços carinhosamente. Reconheceu Mãe Mima de cujo ventre estava saindo para a vida. Entregou-se ao abraço amoroso daqueles a quem amava e reunindo todas suas forças estancou o choro e fez uma careta, retorceu a boca pequenina, confiante e feliz, adormecendo tranquila, no regaço macio e quentinho de sua mãe, ante o olhar emocionado do pai.

               A vida em sua evolução constante à qual todos os seres estão fadados, seja de forma rápida ou mais lenta, conforme os desejos e necessidades de cada um se encarrega de colocar na mesma rota todos aqueles, que necessitam aprender juntos, seja lá o que for que tenham escolhido para si. Amor, dor, desunião, ciúmes, inveja, compartilhamento ou ajuda mútua. As escolhas são infinitas, as possibilidades maiores ainda e muitas as moradas do Pai, porque por necessidade nossa, podemos seguir para qualquer uma delas, onde se faça necessário a nossa colaboração, tendo por finalidade nos melhorarmos e ajudar a alavancar o progresso daqueles que estiverem por perto.

   
Lizete Iria
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