quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Amar o próximo não significa necessariamente gostar..


“Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai” (Jo 14:21) - Jesus

      Amar o próximo não significa necessariamente gostar dele. A expressão sentimental do amor tende a obscurecer o verdadeiro amor, porque o que gostamos hoje podemos odiar amanhã. O amor ao próximo é o eixo central de toda a ética espiritual, pois significa a identificação com o outro, significa a compaixão pela dor do próximo que nos leva a uma atitude de boa vontade e cooperação, mesmo para com aqueles que não gostamos. Lembramos, nesse sentido, as palavras de Leonardo Boff: “O amor incondicional possui características maternas, tem compaixão por quem fracassou. Recolhe o que se perdeu. E tem misericórdia por quem pecou. Nem o inimigo é deixado de fora. Tudo é inserido, abraçado e amado desinteressadamente.” O sentimentalismo pode até ser prejudicial à compaixão, pois pode tornar nossa identificação com o sofrimento alheio intolerável e, portanto, impossível de ser transformada em ação de ajuda. O sentimentalismo advém da identificação do ego como sendo o outro. O verdadeiro amor identifica o Eu Superior como sendo o próximo. Portanto, enquanto não nos libertarmos em boa medida da prisão de nosso próprio ego, teremos dificuldade para identificar-nos com a natureza superior de nosso próximo. É por isso que Jesus acrescenta sabiamente ao final da declaração a condição de amar “como a ti mesmo.”

     Podemos concluir que para desenvolver a verdadeira compaixão devemos, em primeiro lugar, aprender a nos identificar com nosso verdadeiro ser, o Eu Superior, para então identificarmo-nos com o verdadeiro ser de nosso próximo, em vez de cairmos na armadilha do sentimentalismo inoperante e muitas vezes contraproducente. É por isso que a motivação central do budismo filosófico é a grande compaixão, conhecida no jargão budista como bhodichitta, ou seja, o compromisso de buscar a iluminação o mais rapidamente possível para capacitar-nos a ajudar verdadeiramente a todos os seres.
       Em muitas outras passagens da Bíblia, somos instados a amar-nos uns aos outros (Jo 15:17), a amar-nos como Jesus nos amou (Jo 13:34 e 15:12) e, até mesmo a amarmos nossos inimigos (Mt 5:44). O amor é, assim, um dos fatores fundamentais do ensinamento de Jesus, o que era reforçado pelo exemplo do Mestre, que aparece nos relatos canônicos e apócrifos como um ser profundamente amoroso que nos convida a seguir seus passos.

      Amar realmente nossos inimigos é sem dúvida um dos mais duros testes de nosso compromisso espiritual. Essa prática é especialmente difícil porque geralmente nos volvemos para o ego de nosso desafeto e não para sua natureza divina. Para amarmos nossos inimigos devemos manter fora de nossa esfera emocional todas as negatividades da natureza inferior, como o ressentimento, a amargura, a tendência à discussão, o ciúme, o rancor e a vingança. Nesse sentido, Buda ensinou: “O ódio jamais é vencido pelo ódio. O ódio só se extingue com o amor; esta é uma verdade eterna.”

      Jesus nos ensina que a expressão de amor que Deus mais quer dos homens nem sempre é aquela que os homens procuram demonstrar. Por isso ele disse: “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai” (Jo 14:21). Se interpretarmos a palavra “mandamentos” como “ensinamentos” teremos aqui a essência da tradição interna: seguir os ensinamentos de Jesus como a mais perfeita expressão de amor a Deus.


Fonte:
OS ENSINAMENTOS DE JESUS E A TRADIÇÃO ESOTÉRICA CRISTÃ
AS CHAVES QUE ABREM O REINO DOS CÉUS NA TERRA
Raul Branco

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