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terça-feira, 6 de novembro de 2012

A garota das flores



“Digo-te que dali não sairás enquanto não tiveres pago até o último ceitil!”  Jesus.

Podemos e temos o direito e o livre-arbítrio de fazer o que bem entendermos, o que quisermos de nossas vidas, porém nossas atitudes doentias que causarem prejuízos seja a nós ou a terceiros, retardando o processo evolutivo, será debitada em nossa contabilidade divina e tudo que for acrescentado a nossa conta cármica deverá ser posto em ação em encarnações futuras para que devolvamos o equilíbrio onde provocamos desarmonia. 

                 Esta história aconteceu num passado distante. Tão distante que se perdeu nas eras. Porque está situada nos primórdios das civilizações. Quando as cidades mais organizadas e com alguns recursos eram poucas e distantes umas das outras. Quando a maioria das pessoas vivia em tribos e aldeias, formavam clãs e as cidades eram um amontoado de casebres ao redor de um poço, onde buscavam água para consumo.
                Numa pequena aldeia morava Mebahel, que significa a luz do meu farol, nome de origem turca. Sua família era de pequenos comerciantes e viviam numa grande tribo, onde tiravam os alimentos da terra e o que não produziam trocavam com os vizinhos. Vida simples de pessoas humildes, pois tinham somente o necessário para viver.  Entretanto na carência de que eram cercados, uma luz brilhava, qual farol a indicar a esperança e a fé que nunca se punha, porque a luz provinha de Mebahel, filha única do casal de anciões, que havia perdido inúmeros filhos. Muitas vezes o curandeiro da tribo, conseguia salvar alguém das garras da morte, mais por interferência divina do que por suas habilidades curadoras.

                A pequena Mebahel sobrevivera e os pais agradeciam diariamente a Deus pela filha abençoada que alegrava seus dias. A vida passava lentamente e o pai, viajava para vender ou trocar suas parcas mercadorias, complementando assim a renda da família. A mãe e a garota vendiam lírios quando iam até a fonte que era um lugar de encontro das pessoas que buscavam água  e faziam trocas entre si. Mebahel cresceu e a suavidade de sua beleza perfumada encantava a todos. Era doce, alegre, protegida e querida por todos. Amava as flores e suas prediletas eram os lírios, pela brancura imaculada de suas pétalas e suave aroma. Era conhecida como a garota das flores.
                Na semana que completaria 14 anos o pai ainda não voltara de sua viagem e a mãe adoentada não pode comparecer a fonte para vender flores. Mebahel foi com a tia e ao chegarem se distrairam com as trocas de mantimentos, momento em que a garota ficou só. Naquele instante um grupo, passou a galope, levantando poeira e direcionando as montarias para as pessoas que se encontravam no local. Eram salteadores, aproveitadores de toda ordem que ameaçavam as pequenas aldeias. A tia ouviu o tropel e virou-se para ver o que era entrando em pânico. Eles vinham na direção de Mebahel e não daria tempo de tirá-la dali. Na confusão que se estabeleceu não divisava mais a sobrinha e correu, mesmo sabendo que não chegaria a tempo. Era cada um por si. Todos foram surpreendidos pela horda que se aproximava velozmente. Chegaram onde estava Mebahel destruindo tudo. A tia gritou, mas a voz não saiu. Faltaram forças. Quando a garota se deu conta do que acontecia já estava cercada pelos brutamontes, um deles veio em sua direção espalhando as flores que ela carregava e derrubando-a na terra seca. Mas ao lançar a montaria sobre ela num golpe mortal, caiu estrondosamente, ficando com os pés presos no estribo e sendo arrastado para longe aos gritos, pois estava sendo esfolado e pisoteado pelos outros animais. Mebahel levou tamanho susto que empalideceu, ficando mais branca que os lírios e levantando a cabeça lentamente, viu junto a si um homem. Altivo, com uma túnica de linho creme, que lhe cobria da cabeça aos pés. O capuz não permitia ver seu rosto. Entretanto a energia que emanava dele era tão forte que ela ficou paralisada olhando aquela figura a sua frente. O homem do capuz estendeu a mão para ela, levantando-a com suavidade. Colocou um buquê de lírios em suas mãos, e a outra pousou em seu ombro, num gesto de carinho e proteção. Um choque percorreu o corpo de ambos. Uma eletricidade que somada surtiu o efeito de um raio e naquele instante o tempo não tinha pressa de andar. Ficaram assim abandonados naquela magia. Até que alguém o chamou e ele puxou Mebahel tomando-a nos braços, montou em seu cavalo, desaparecendo na multidão.
                Mebahel fora raptada pelo líder do grupo de salteadores que ficara impressionado por sua beleza suave. E que tomado de amores por ela a tornou sua mulher. Assim ela por estar também presa pelo magnetismo do raptor, entregou-se a ele, com todo ardor de que era capaz. Sofria longe da família porque amava os pais. Porém afastada deles não soube que morreram de desgosto.. Entretanto a saudade da família era amenizada pelos braços ardorosos, pelo amor selvagem do homem que a violentara. Dos filhos que geraram apenas um sobreviveu ante a vida andarilha e rude que levavam, pois eram nômades e dificilmente ficavam muito tempo em algum lugar. Viviam de saques, festas nos acampamentos e sem pouso fixo. Sujeitos a todo tipo de intempérie. Até que um dia seu homem saiu para um assalto com o grupo sob seu comando e não voltou. Mebahel ficou abandonada com o filho e por falta total de recursos morreram ambos de fome e doentes. Nunca soube o que acontecera com o companheiro e a tristeza e a solidão minaram a sua saúde já frágil pelas vicissitudes a que foi submetida após ser raptada.
                O que ela não sabia era que esta encarnação era consequência de outra vida em que abandonara o marido, fugindo com um homem de mais posses pelo qual se apaixonara, relegando os pais a mais absoluta miséria. E como na época eram corriqueiras as vinganças, o esposo abandonado assassinou o casal em uma emboscada.  Assim agindo, colocaram em ação a lei do A cada um Segundo suas Obras, de Ação e Reação, que determina o carma pessoal e grupal.  E em nova encarnação foram reunidos pela sabedoria e justiça divina que a todos dá novas oportunidades. Eis que o homem que a raptara era o amante de outrora e o ex-marido seu filho na atual encarnação. Foi separada dos pais para valorizar a família que desprezara. Como por ações levianas e intempestivas destruiu o lar que havia formado aprendeu a duras penas, através do abandono e da perda do filho a valorizar os compromissos assumidos.
                Podemos e temos o direito e o livre-arbítrio de fazer o que bem entendermos, o que quisermos de nossas vidas, porém nossas atitudes doentias que causarem prejuízos seja a nós ou a terceiros, retardando o processo evolutivo, será debitada em nossa contabilidade divina e tudo que for acrescentado a nossa conta cármica deverá ser posto em ação em encarnações futuras para que devolvamos o equilíbrio onde provocamos desarmonia. E aprendamos, sentindo em nós a dor que causamos aos outros.
                O amor, somente o amor, em sua acepção mais ampla, vivenciado através do evangelho de Jesus, nos traz o esclarecimento necessário, ensinando com simplicidade o caminho que devemos percorrer para melhorar nossos egos duros e calcetas que distorcem os fatos a nosso favor, numa tentativa patética de manter nosso jeito de ser egoísta e prepotente. Os ensinamentos de Jesus são tão singelos, tão simples, que encontramos dificuldade em segui-los. Porque gostamos da pompa e dos subterfúgios que nos favorecem. É hora de amadurecer nossas consciências e começar mesmo que a passos miúdos a subir a escada do conhecimento que nos liberta de nós mesmos.
  
Lizete Iria - médium do Triângulo.

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