segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cidade dos anjos 1

                Larissa... Garota alta, magra, bonita. Cabelos castanhos ondulados... E olhos grandes. Amendoados e tristes... Tristeza brotando da alma. Derramando solidão por todos os poros... Apesar de fazer parte de uma família com pai, mãe e irmão caçula. Tão caçula que a diferença entre eles era dez (10) anos.  E Larissa após voltar da escola pela manhã, tomava conta do irmão, enquanto a mãe trabalhava à tarde e a noite.  Quando o pai retornava a noitinha ajudava a garota a cuidar do moleque.
Deste modo a vida de Larissa de resumia em frequentar a escola, estudar, fazer os trabalhos junto com os colegas quando necessário, eventualmente passear com as primas ou amigas. Amigas mesmo apenas Gloria e Maísa, porque moravam perto e estudavam na mesma classe. Eram da mesma idade. Repartiam entre si os sonhos de adolescentes, porque os pais nem tinham tempo para conversar ou reparar se a garota tinha necessidade de conversar, se abrir, falar sobre suas dúvidas, encantos ou desencantos.
O tempo foi passando e Larissa estava com quinze (15) anos. Idade em que as garotas começam a sonhar com o mundo, com os garotos, a traçar planos para o futuro. A transformar-se de menina para mulher. Cheias de atitudes. Amadurecendo mais rápido que os garotos. Fase em que necessitam acompanhamento redobrado dos pais, muito diálogo, carinho e compreensão. Orientação segura sobre as diversas escolhas que temos de enfrentar ao longo da vida. Lições e exemplos de moral, ética, boas maneiras... Enfim... Educação, limites, aprender a eventualmente dizer NÃO para os amigos. Defender-se quando necessário, sem violência, com sabedoria. E principalmente a ser RESPONSÁVEL.  Que nossas atitudes geram consequências sobre nós ou sobre terceiros e que teremos de arcar com o ônus que as mesmas possam representar. Seja hoje, amanhã ou num futuro próximo.
O tempo estava passando e Larissa guardando no mais fundo de seu coração seus anseios, suas tristezas, suas esperanças, sem que a família percebesse. Porque não tinha coragem de contar para a mãe o que lhe afligia. A carência afetiva que a dominava e que não era preenchida pela família. Achava-se posta de lado desde o nascimento do irmão. Achava que os pais davam mais atenção ao garoto que a ela. Amava e detestava aquele pequeno ser que estava ocupando o seu lugar, mesmo compreendendo que por ser tão frágil necessitava cuidados especiais. Mas o filho não era dela. Não queria ter irmãos. Por ser tão nova não se achava capacitada para cuidar de uma criança. 
Uma criança cuidando de outra.  Porque a mãe não dava um jeito de conseguir alguém para cuidar do menino? Afinal ela era a responsável.  Será que a mãe não percebia que estava sufocando a filha? Que já nem tinha tempo suficiente para fazer as tarefas da escola? Que dirá um passeio ou uma conversa com os amigos? Que vida é essa? Até quando? Assim nem um namorado vou ter!  Como poderei conhecer alguém se não tenho tempo para nada? 
Os dias se seguiam a uma monotonia sem graça, a um viver sem emoções, a lágrimas sufocadas e derramadas no travesseiro durante a noite. A olheiras profundas e uma magreza infinita. Noites mal dormidas e dias compridos e iguais. Um após o outro. Num ritmo desalentador. Sem chance de melhorar. 
- Cadê o príncipe encantado montado num cavalo branco? 
- Cadê o salvador de seus dias e suas esperanças?
Angustiada, comentou com Gloria, sua amiga, sobre as questões que a estavam incomodando e depois de uma longa conversa, ouviu os conselhos da garota que já havia passado por situação semelhante. E resolveu que dali para frente não ficaria mais com este sentimento de solidão, colocando em prática o que escutara.
O tempo passa e a mãe de Larissa percebeu algo muito sutil, um olhar diferente, estranho, uma postura contraditória e levemente arrogante em relação ao comportamento usual da garota.  Aquela garota meiga e alegre cedeu lugar a uma quase mulher desconfiada, assustada e com dificuldades para sair da cama pela manhã, mesmo em dia de aula. Após o almoço também procurava terminar seus afazeres com rapidez e se recolhia ao quarto para cochilar durante a tarde. Atitudes que tempos atrás eram totalmente impensáveis, levando uma vida saudável e alegre.
Desconfiados os pais passaram a prestar mais atenção nela e quando perguntavam o que estava acontecendo ela dizia que não era nada, que eles estavam enxergando coisas. Excesso de preocupação. E rapidamente se afastava dos pais, trancando-se no quarto. Larissa, entretanto não percebeu que com as mudanças que estava passando, a agressividade começou a se manifestar, com um isolamento cada vez mais constante.
Seu sono já não era tranquilo, acordava várias vezes durante a noite, falava coisas incoerentes, seu viço e mocidade estavam desaparecendo. A mãe assustada, porque sem que ela soubesse entrara algumas vezes no quarto para verificar o que estava acontecendo, convenceu o pai a ficar observando o sono da filha. Resolveram então que ambos, na noite seguinte ficariam guardando e observando a garota dormir.
Tão logo Larissa adormeceu, começou a se agitar e a dizer coisas incoerentes. Os pais que já estavam no quarto, assistindo ao desenrolar dos acontecimentos , começaram a rezar, pedindo ajuda e proteção para ela e para a família. Um barulho ensurdecedor fez-se ouvir do lado de fora. O portão que sempre era trancado com uma corrente com cadeado, foi repentinamente aberto. A corrente rebentada. Sem nada. Sem vento, temporal ou o que valha. Entretanto, recém haviam sido trocados, eram novos! O que está acontecendo? Barulhos por todo lado! Luzes que apagavam e acendiam!

Lizete - médium do Triângulo.



CONTINUA NO PRÓXIMO POST...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Google analytics