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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Recado do além

                   Naquela noite Cely surpreendeu-se com o sonho que tivera. Acordou no meio do enredo e ficou com uma sensação de peso, a cabeça doendo, sem saber se sonhara ou participara de uma estória. Tão real lhe estava parecendo. 
             - E agora? Não sabia o que pensar.
             Dormiria novamente e pela manhã trataria de entender o que estava acontecendo. Ou, pelo menos tentaria. Porque outras vezes não dera certo.
         Sua falecida avó lhe aparecera em sonho novamente. Toda vez que acontecia, podia contar como certo que algo de sinistro ia acontecer na família. Cely arrepiou-se da cabeça aos pés, um frio percorreu sua espinha, anunciando que um grande desconforto estava prestes a se instalar. Era sempre assim e depois de um tempo que poderia ser algumas horas, um dia ou dois, a bomba estourava e alguém da família partia desta pra melhor. Quer dizer, morria mesmo, sem dó nem piedade.
                Contrariada com a intromissão de sua Vovó Licinha, como chamava a avó materna a quem tinha verdadeira adoração, pensou que brincadeiras deste porte eram muito sem graça. Bem que ela podia deixar os parentes do lado de cá em paz. Que coisa!
                - Porque Vovó não arranja outra coisa melhor para fazer, além de ficar brincando comigo? Com a minha paciência? Será que no lugar onde ficam os mortos não tem coisa melhor para se ocupar? Matar o tempo?
                 -Mãe! Mãe! Sonhei de novo com a Vovó! Quem será desta vez? Tem alguém doente na família?
              - Credo garota! Vira essa boca para lá! Nem fala uma coisa dessas! Deus me livre e guarde! Esquece o tal sonho e vai dar uma volta depois do trabalho, para espairecer! 
                   Logo Cely despediu-se da mãe e foi trabalhar, depois do serviço sairia com as colegas. Iriam ao cinema! Distrair-se! Namorar! E quem sabe, o que viria depois? Pensando em divertir-se o dia passou rápido e as garotas no final do expediente foram “espairecer”.  Não tinham hora para retornar para suas casas.
                   Durante o jantar combinaram de procurar um lugar para dançar, fazer novas amizades. Entretanto Cely que não estava bem desde a noite anterior, com o sonho martelando em sua cabeça, nem prestou muita atenção ao que elas diziam e com um imenso desconforto, sentindo-se deslocada, resolveu despedir-se das companheiras e retornar ao seu lar. A diversão ficaria para o final de semana.
                    Quando retornava de taxi a voz de sua Vovó soou forte dentro de seu cérebro, imaginava-se conversando com ela que a abraçava com todo amor. ... Mas que raio... Não conseguia ouvir o que dizia... Era como se em sua mente rodasse um filme antigo e mudo. Não ouvia. Que estranho! Porque sua Vovó falava e ela não registrava as palavras? O que estava acontecendo? Com certeza abusara do espumante e o cansaço tomava conta. Estava tonta. Será que delirava?
                 - Ai! Que droga! Até quando vou ficar com este pensamento, com essas ideias que Vovó colocou em mim? Que chato!
                 E assim chegou a casa, enjoada, a comida devia estar estragada, porque o sistema gástrico- intestinal iniciou um protesto avisando que não estava bem. Desceu então do taxi, entrando rapidamente em casa, ia direto para o chuveiro e depois cairia na cama. Estava exausta. O dia agora lhe parecia estranho. Algumas coincidências que antes não percebera vieram a sua lembrança. Expulsou as ideias intrusas passando a mão na testa, apesar de não ter percebido antes um pequeno detalhe, lhe ocorreu que suas mãos e testa estiveram suadas e frias o dia todo. 
               Correu ao quarto da mãe que estava acordada lendo, esperando a filha retornar. Quando a moça entrou foi com espanto que a viu completamente desalinhada, com um ar estranho. Será que já sabia? Alguém da família certamente já devia ter dado a notícia. Só podia. Entretanto com cautela perguntou?
               - Que cara é essa Cely? O que houve? O programa de vocês foi por água abaixo? Perguntou tentando ganhar tempo.
                - Mãe o sonho não me sai da cabeça, parece que grudou em mim. Não estou me sentindo bem. Cadê o pai?
                  - Filha senta perto de mim. Tenho uma notícia pra te dar.
                - Josemiro, teu pai, teve um AVC e está hospitalizado. O Junior está com ele. Voltei para casa pra te esperar. Não avisei antes porque resolvemos leva-lo ao hospital e ter certeza do que era. Além do mais sei que não podes estar saindo do trabalho. Talvez precisemos de tua presença mais tarde, por este motivo te poupei agora. Prepara-te que a coisa é séria.
              - Mãe eu sabia. Maldito sonho. Porque Vovó faz isto comigo? Nunca mais quero sonhar com ela! Nunca mais! Só me dá notícia ruim! 
            A senhora que estava ao lado delas, fazia parte do mundo espiritual. Amorosa anciã que viera para estar junto da família naquele momento de dor. Entretanto ante a rogativa de Cely e respeitando a sua vontade, resolveu que desapareceria dos sonhos da neta que por falta de preparo e total imaturidade espiritual não compreendia as intenções de sua avó. Aliás, não queria saber notícias do mundo espiritual, da vida após a morte. Pensava que morreu, acabou! Desapareceu! Nunca procurou saber se existe algo depois ou para onde vão os mortos, simplesmente desaparecem e... Fim.   
           Cely nunca questionou porque Deus em sua infinita misericórdia teria tanto trabalho para dar vida a seus rebeldes filhos e depois os exterminaria simplesmente sem ter nenhum proveito o estudo, as aquisições, as obras realizadas, o bem ou mal que possam ter provocado, as contribuições e o amparo que deram aos seus irmãos de jornada.  
                           Acabou! Acabou! Será que Deus brinca de criar e depois quando cansa destrói a sua obra?   Mas, que falta de coisa melhor pra fazer, né?
            Cely não compreendeu as intenções de sua avó. Muitos que estão por aí sem rumo, vivendo por viver, com altos índices de desinteresse, de tédio, de pânico, não tem interesse e também não procuram entender as relações com o mundo espiritual. Estão anestesiados e pensam que viver é comer, trabalhar, divertir e se reproduzir. Só! Nada mais!
           Os irmãos da espiritualidade, irmãos porque do mesmo Pai, irmãos quando se pensa no ser como parte de uma família universal, se preocupam conosco e tentam da melhor maneira possível e de acordo com as nossas possibilidades de compreensão, nos intuir acerca dos acontecimentos que poderão nos afetar, para que nos preparemos e nos fortaleçamos, para enfrentar as mazelas de nossa pobre existência de analfabetos e ignorantes espirituais. Tentam assim aliviar o nosso fardo, se solidarizam com as nossas dores porque já passaram por tais infortúnios e condoídos e penalizados com a nossa imaturidade procuram se acercar de nós com amor e fraternidade. 
Vibram com os nossos acertos e nos consolam nos fracassos. Estão sempre nos incentivando, mas nós não entendemos os recados. Achamos desagradável estudar, melhorar nosso humor, modificar nossas atitudes. Pensamos que espiritualidade é sinônimo de cobrança, de vozes cavernosas, seriedade e pieguice. É descansar flutuando nas nuvens. Tocar lira no céu.
             Somos dignos de piedade. Somos infantis. Egoístas. Olhamos somente para nosso reflexo. O resto não nos interessa!
                Que o Pai permita que esses abnegados irmãos que velam por nós jamais desistam. 
              Que a humanidade não se perca no materialismo e descubramos em nós a divindade que habita em nossos corações. 
              Somos deuses, porém não nos comportamos como tal.

Lizete - Médium do triângulo

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