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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Médico e Umbandista sim, com muito orgulho


 "Prefiro, sinceramente, deixar de atender certas pessoas preconceituosas quando visto o jaléco branco da profissão do que não poder servir de instrumento ao amparo de quem tem merecimento, quando visto o branco da Umbanda." 


Racionalismo versus espiritualidade, aparências sociais versus desprendimento, materialismo versus fé... Estes são somente alguns dos muitos conflitos pelos quais já passei e continuo passando desde o momento em que realmente resolvi abraçar sem restrições o caminho do exercício da mediunidade e do trabalho caritativo na Umbanda. Escolher uma carreira profissional essencialmente mentalista e racional onde somos ensinados a buscar na anatomia e na fisiologia humana uma explicação plausível para todas as doenças, tendo na anamnese clínica e no  exame do corpo físico as ferramentas fundamentais para chegar aos diagnósticos e lá pelo meio de nossa caminhada encarnatória entendermos que existem muito mais coisas entre o céu e a terra, realmente cria dilemas  em qualquer espírito imperfeito.
Ainda hoje  com bastante habitualidade presencio algum irmão de fé confessar que prefere manter no anonimato seus trabalhos no terreiro de Umbanda em virtude do preconceito que ainda assola a população em relação as religiões afro-brasileiras. Vejo-me em muitos destes depoimentos e me remeto a época em que ao ser perguntado sobre minha religião costumava responder torcendo para que não pedissem detalhes: sou espiritualista. Isto provavelmente contentava minha consciência na época e satisfazia aos interlocutores que obviamente concluíam, influenciados por minha profissão,  que eu me referia ao Kardecismo e davam-se por satisfeitos, encerrando o assunto (para meu alívio).  Em determinado momento eis que esta saída pela tangente começou a incomodar a minha consciência e me dar uma sensação de clandestinidade, de estar fazendo algo muito repreensível aos olhos da espiritualidade pois  escancarava um comportamento nitidamente ambíguo e que no fundo denotava falta da vivência e interiorização de minha própria fé. Que moral existe em esconder-se atrás de subterfúgios e meias-verdades enquanto cobramos dos consulentes durante os atendimentos uma postura de exercício diário da fé?
No momento em que percebi a dádiva de estar podendo servir de instrumento aos sagrados orixás e aos irmãos da espiritualidade que anonimamente vêm trazer conforto aos espíritos necessitados, tanto encarnados quanto desencarnados, passei a utilizar sem o menor prurido a palavra umbandista. Obviamente que no meio em que atuo, onde a imagem é um artigo a ser preservado acima de tudo e doa a quem doer mesmo que com toda hipocrisia, refletindo claramente no volume da clientela e na inserção social de quem escolhe a carreira médica, não foram poucas as vezes em que percebi os olhares pasmos e chocados de quem soube da minha opção e exercício religiosos. Em mais de uma oportunidade ouvi de colegas de profissão que não entendiam como alguém esclarecido e equilibrado podia acreditar em tais baboseiras e virar "macumbeiro". Aliás, acho que a  palavra macumbeiro é o pavor de todo umbandista que ainda vacila em sua crença pois traz a mente trabalhos de magia negra, sacrifícios animais, roupas espalhafatosas e toda uma bagagem histórica de ignorância cultural e religiosa. Apesar de passados 104 anos da chegada da religião Umbanda no plano material, persistem até hoje um sem número de preconceitos que vem resistindo a passagem do tempo estimulados pelo imaginário popular e pela falta de conhecimento repassados da geração anterior para a atual. Há poucos dias atrás  vivenciei mais uma experiência que me fez ver como isto ainda é verdadeiro. Participava de  uma reunião profissional com outras pessoas da área de saúde e com um engenheiro que fazia uma perícia em um hospital onde atuo. No meio da conversa o engenheiro querendo traçar um paralelo com outro assunto usando a religião como exemplo me questionou sobre minha opção religiosa ao que pronta e naturalmente respondi: umbandista. O silêncio e a consternação ficaram quase palpáveis no ar, houve uma espécie de baque generalizado entre todos e o sujeito sem saber exatamente o que dizer me saiu com a pérola:"obrigado doutor, muito bacana sua sinceridade", mudando imediatamente de assunto. Foi como se eu tivesse acabado de confessar um segredo escabroso e certamente a imagem que lhes veio prontamente a mente foi a minha pessoa participando de algum sacrifício as portas de um cemitério qualquer e quase pude ver refletido em seus olhos o rótulo "macumbeiro" escrito na minha testa. O que eu penso disto hoje? Acho graça e sinceramente me penalizo com a limitação de conhecimento a respeito desta religião evidenciada por muitos irmãos, mas então me lembro que há alguns anos atrás eu era exatamente igual ou talvez ainda pior.
A impressão que tenho é que pelo entendimento de grande parte da população qualquer profissão que tenha tradição de dar status e projeção social é incompatível com uma religião que nivele todos pelo branco e pelos pés descalços, fazendo a caridade sem distinção de cor, credo ou classe social. O desconhecimento popular não permite entender que do lado de lá, travestidos de caboclos, pretos velhos e demais trabalhadores do astral estão médicos, físicos, engenheiros e demais desencarnados que vivenciaram todos os tipos de profissões no plano material e que quando necessário para a evangelização dos consulentes se apresentam também  em outras religiões mas sob formas de suas vivências anteriores um tanto mais glamorosas, não que isto lhes faça diferença ao ego pois somos somente nós que nos fixamos nas aparências.
A umbanda certamente ainda tem um longo caminho a ser percorrido no sentido de derrubar tabus e mudar preconceitos, inclusive entre os próprios trabalhadores que fazem parte de suas fileiras. Enquanto tivermos vergonha de assumir perante a sociedade de peito aberto a opção que fizemos não podemos exigir que a mesma mude de um dia para o outro a imagem que se distorceu ao longo do tempo, causada também pelos desmandos de pessoas que se dizem umbandistas e em nada praticam dos princípios doutrinários que norteiam esta religião, muitas vezes por desconhecimento, outras por ganho secundário.
Hoje encaro minha opção com toda tranqüilidade, pois sei que  ninguém que porventura venha a me criticar irá levantar de manhã cedo para trabalhar em meu lugar e garantir meu sustento financeiro, então entendo que também não devo satisfações a quem quer que seja sobre minha fé. Prefiro sinceramente deixar de atender certas pessoas preconceituosas quando visto o jaleco branco da profissão do que não poder servir de instrumento ao amparo de quem tem merecimento quando visto o branco da Umbanda. Espero ter a oportunidade de poder usar o branco do trabalho e também o da fé até o dia em que meu corpo físico esgotar sua vitalidade e que quando este dia chegar eu tenha o merecimento de ser assistido por algum colega de profissão que saiba procurar as causas de meus problemas tanto no corpo físico quanto no espiritual. Neste sentido muito já vemos de mudança de consciência no meio científico sendo cada vez mais o ser humano visto como um ser integral e de essência eterna e não meramente como um envoltório de carne físico e perecível.
Que possamos mudar nossas consciências, assumir nossas convicções, envergar com orgulho e respeito o branco da umbanda sem receios de sermos julgados ou sem julgar a quem o fizer, pois da mesma forma que o que está embaixo está acima, também o que está em nosso interior é o que será refletido no exterior e nas atitudes de quem nos cerca. E que quando enxergarmos em algum restaurante nas cercanias de qualquer hospital, médicos recém formados ou ainda em formação fazendo a refeição trajando jaleco branco e com o estetoscópio no pescoço, possamos lembrar que a maturidade somente vem com o tempo e que a humildade não pode ser ensinada nas aulas da universidade pois infelizmente para nossos espíritos infantis ela ainda precisa ser aprendida através de  nosso próprio sofrimento ou provações.

Adriano - Médico e Médium do Triângulo.
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