segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Umbanda e a lei de salva. Salva a quem???


      
       O ser humano quando sob a influência da ganância costuma utilizar de todo e qualquer subterfúgio para justificar suas ações a fim de não ser julgado por outras pessoas ou pela sua própria consciência.
Existem inúmeros rituais, preceitos e tradições que são comuns e se confundem entre as diversas religiões de raízes afro-brasileiras. Tais semelhanças muitas vezes dão margem a certas práticas que utilizam indevidamente o nome da sagrada Umbanda, contrariando diretamente muitas das normas de culto repassadas pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas ao anunciar o nascimento dessa religião que acima de tudo tem na caridade a sua essência maior.
      Uma destas práticas é a chamada Lei de Salva que seria fundamentalmente uma compensação feita a alguém em troca de um serviço prestado. Esta justificativa tem raízes muito antigas, remontando ao antigo Egito onde era chamada Lei de Amra. A explicação está na troca energética existente nas manipulações magísticas pois como toda ação mágica ocasiona uma reação, um desgaste, uma responsabilidade e uma conseqüência  imprevisível em virtude das forças movimentadas, seria imprescindível que o médium-magista estivesse coberto do ponto de vista material a fim de poder enfrentar a qualquer instante essas possíveis condições sendo então forçoso que houvesse uma compensação.
A razão estaria no fato de que todo aquele que manipula energias dando sem receber nada em troca fatalmente tenderia a sofrer um desgaste pela natural reação de uma lei oculta chamada de vampirização fluídica astral com enfraquecimento de suas forças ou energias psíquicas. Esta compensação, respeitada esta lei, deveria cobrir somente o necessário para a realização da manipulação energética no caso da mesma necessitar do uso de elementos rituais. Uma das formas de estabelecer um valor “honesto” para tal compensação estaria em uma regra que diz: “ De quem tem, peça três, tire dois e dê um a quem não tem; e de quem não tem, nada peça e de até seu próprio vintém”.Seguindo esta orientação, o manipulador das energias poderia ficar com 2/3 do que recebesse desde que desse o outro terço para caridade fazendo tal cobrança somente de quem tivesse condições de pagar e fazendo-o de graça a quem não tivesse.
      Pois bem, até aí fica a critério de cada um a concordância ou não com a justificativa para esta prática mas o que se faz necessário é trazer a luz da razão o uso que se faz desta lei que acabou por se tornar uma forma confortável para encobrir extorsões financeiras por parte de pseudo-gurus, pais-de-santo inescrupulosos e simples charlatões que se aproveitam da fragilidade emocional de pessoas que buscam soluções mágicas para resolução de seus problemas. Quantos centros que ostentam em suas fachadas a denominação de Umbandistas utilizam-se das giras de caridade gratuitas para drenar prováveis pagantes para as chamadas “consultas” dadas por seus dirigentes em outros horários, nas quais investidos do papel de canais mediúnicos e teoricamente dando voz as mensagens de entidades iluminadas, acabam por persuadir indivíduos com fé questionável a desembolsarem quantias financeiras imorais para agradar de “ Bará a Oxalá” através de trabalhos arriados em lugares os mais diversos, muitas vezes lançando mão de sacrifícios de animais e agredindo o meio-ambiente. Isto quando não verbalizam um aviso codificado nas cartas de Tarô, nos búzios ou nas mensagens recebidas diretamente dos “orixás” através da intuição, clarividência ou clariaudiência a respeito de demandas de magia negra que explicariam todas as agruras pelas quais os incautos estariam passando e que já teriam sido esmiuçadas durante a gira de caridade no atendimento feito pelo pretenso amigo espiritual que aconselhou o consulente a procurar o dirigente. São convencidos de que tal magia malévola só se combate com um desmancho muito complicado e com uma outra magiazinha para “abafar” o mandante e deixar o tal cidadão a salvo e com os caminhos novamente abertos.
       Colocando o assunto desta forma, parece improvável que alguém se deixe iludir a tal ponto mas nós espíritos encarnados somos absolutamente imediatistas e tendemos a atribuir nossos insucessos e falta de empenho pessoal a interferências nefastas de terceiros. Porque então não ceder a conveniência do apelo de resultados fáceis largando nas mãos da espiritualidade a solução de todos os problemas? Cada um justifica para si mesmo a aceitação destas práticas de acordo com o momento existencial pelo qual estiver passando como traduz o seguinte depoimento de um médium autodenominado umbandista:

 “No centro umbandista que eu freqüentei durante 2 anos, nada era cobrado, porém nada era feito,nunca arriei uma comida pro meu santo, como é que vamos chegar a algum lugar assim? Tudo nessa vida tem seu preço, as igrejas cobram, hospitais cobram...E é claro o santo cobra também. Se eu quero chegar a algum lugar na vida,tenho que fazer por merecer”.

        Cada um tem pleno direito de defender suas convicções, mas certamente este irmão é um dos tantos que não tendo alcançado a maturidade espiritual e mediúnica adequadas atribui um problema que certamente é seu a práticas templárias “inadequadas”. Certamente encontraria no estudo da doutrina que julga praticar a explicação para muitos dos seus questionamentos, da prática adotada pelo centro ao qual atribui o erro por não cobrar e principalmente no que consiste o conceito de “fazer por merecer” aos olhos da Lei Maior. Se assim o fizesse entenderia que não é preciso desembolsar o que quer que seja ou depender de qualquer intermediário para alcançar a objetivo maior de estar encarnado. Bastaria ele descobrir no Evangelho de Jesus o caminho para chegar ao único lugar onde todos os nossos espíritos imperfeitos almejam chegar: o mais próximo possível da essência do Pai.
       A Umbanda tal como foi repassada ao plano material pela espiritualidade não admite cobranças de nenhuma espécie. Como então admitir que um encarnado que foi agraciado com a missão da mediunidade pela misericórdia divina através de um compromisso sagrado assumido no plano espiritual possa cobrar por algo que lhe foi concedido de graça e com a única finalidade de auxiliar no alento e no crescimento espiritual dos irmãos de jornada? Adotar tal prática justificando estas atitudes em uma suposta lei adaptada aos interesses de quem coloca o material acima do espiritual somente “salva” a transitória situação financeira destas pessoas que fatalmente terão que devolver com juros para a contabilidade cármica tudo aquilo que foi arrecadado em mais uma existência desperdiçada.

Adriano - Médium do Triângulo
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